![]() |
Cientistas sabem disto e compreendem esse fenômeno há décadas. Para se manterem estáveis apesar de seus movimentos rápidos, os olhos fazem coisas incríveis: eles registram tomadas antes e depois de cada imagem focada e as comparam a fim de confirmar a estabilidade. Isso parece um pouco complicado, mas o processo por si só é muito objetivo (e engenhoso): antes que os olhos percebam um objeto, o cérebro registra a própria imagem desse objeto para compará-la. Ele sabe para onde os olhos irão se movimentar e formam uma imagem do objeto que precede a consciência e a percepção visual desse objeto. Depois, quando os olhos percebem tal objeto de uma forma sensorial (ou seja, pode-se vê-lo), o cérebro já cria uma estrutura para uma suave transição. Não há tremor nem instabilidade. O cérebro antecipa o que os olhos visualizarão e usa essa imagem antecipada como comparação, a fim de se certificar de que o mundo de fato permanece estável no exato segundo antes e no segundo depois da tomada.
Esse processo pode ser encontrado nos livros. Mas os cientistas levaram pelo menos 50 anos tentando descobrir de que maneira o cérebro consegue realizar essa proeza. Um estudo publicado na edição online do jornal "Nature" em novembro de 2006 dá uma idéia dos mecanismos que fazem o cérebro enxergar o que os olhos verão antes que eles de fato visualizem o objeto. Cientistas encontraram um caminho neural que pode explicar a antecipação do cérebro quanto aos movimentos dos olhos (os neurônios são os portadores de mensagens do cérebro, que formam caminhos que conduzem sinais de uma parte do cérebro para outra).
Antes que cheguemos ao caminho mencionado, vamos definir algumas das principais áreas cerebrais que, segundo o estudo, estão envolvidas no transporte da informação:
- Mesencéfalo - liga as partes do cérebro que controlam funções motoras e ações voluntárias dos ouvidos e olhos.
![]() Veja a localização do mesencéfalo |
- Tálamo - recebe informação sensorial (vinda dos ouvidos, olhos, etc) e a transmite à área do cérebro que lida com esse específico dado sensorial. Também ajuda na troca de informação motora (movimento) entre as diversas partes do cérebro.
![]() Confira aqui a parte dorsal (interna) do tálamo. O mesencéfalo se localiza logo abaixo do tálamo. |
- Córtex motor - está envolvido no controle de movimentos voluntários, como movimentos dos olhos.
O tálamo se localiza no córtex sensorial somático, enquanto o córtex motor fica no lobo frontal. O córtex visual transmite dados ao córtex sensorial, informando-o sobre o que os olhos percebem e sobre a interpretação do córtex sensorial.
O que o novo estudo descobriu é um caminho entre o córtex motor e o visual que ativa os neurônios visuais antes que o próprio olho de fato se movimente. De acordo com um dos estudos do autor, Marc Sommer, da University of Pittsburgh, um sinal do córtex motor pede ao córtex visual para que mude seu foco para onde o olho planeja se movimentar na seqüência.
Esse caminho neural começa no mesencéfalo, que possui acesso a dados do córtex motor relacionado ao movimento dos olhos. Esse dado indica o que o olho vai fazer em seguida - é uma cópia do sinal do córtex motor enviado ao córtex visual que comunica aos olhos o movimento do olho. Os neurônios no mesencéfalo transmitem a informação ao tálamo que, por sua vez, enviam os neurônios ao córtex visual, solicitando que mudem a "janela da percepção" para adaptação do próximo comando. A nova e imperceptível imagem da janela alterada chega ao córtex sensorial somático, onde logo se une à imagem visual percebida por aquela mesma mudança um instante depois. Quando o córtex sensorial somático interpreta o sinal visual vindo do córtex visual primário, ele o compara à visão prévia da mesma cena. Ao constatar que ambas imagens são iguais, ele interpreta a "estabilidade" e simplesmente filtra qualquer instabilidade na transição de uma imagem visual para outra.
Os autores do estudo esperam que esta descoberta facilite a compreensão de outras transações sensoriais ininterruptas, tais como a constante percepção de som que ocorre mesmo quando viramos a cabeça em direções diferentes.








