Vírus da estomatite vesicular

Para alguns tipos de câncer, a cirurgia pode ser uma opção perigosa. Entre eles, o câncer no cérebro. A fragilidade do órgão, além do risco e da dificuldade de se chegar aos tumores em regiões profundas do cérebro podem impossibilitar a cirurgia. A quimioterapia (em inglês) e a radioterapia podem ser as únicas opções no tratamento do câncer no cérebro. Esses tratamentos geralmente prolongam a vida de um paciente com esse tipo de câncer por alguns meses.

Alguns pesquisadores tiveram uma idéia: por que não combater fogo com fogo?

Essencialmente, o câncer é o crescimento descontrolado das células. As células são afetadas por vírus. Um vírus poderia infectar células cancerosas? Sim, de acordo com a descoberta dos pesquisadores de Yale. Eles, liderados pelo dr. Anthony Van Den Pol, usaram um vírus existente relacionado à raiva, o vírus da estomatite vesicular - como uma arma contra as células cancerosas.

Células do câncer cervical
Sociedade Americana do Câncer/Getty Images
O câncer é simplesmente o crescimento descontrolado das células, como essa imagem das células cancerosas em um colo do útero

Nos testes de laboratório, os pesquisadores de Yale usaram camundongos infectados com o câncer de cérebro e transplantaram tecido não canceroso do cérebro humano para o cérebro dos camundongos. As células cancerosas foram identificadas com proteínas fluorescentes, assim como o vírus injetado nos camundongos. Isso deu aos pesquisadores uma visão clara do processo: o vírus atacou as células cancerosas, acabando com o tumor no prazo de três dias [fonte: Sociedade de Neurociência (em inglês)].

Os estudos de Yale também mostraram outro aspecto importante. Como progrediu sozinho pelo cérebro dos camundongos, o vírus matou somente as células cancerosas e deixou intactas as células não cancerosas do tecido dos próprios camundongos, assim como do tecido transplantado das amostras humanas.

Van den Pol e seu grupo descobriram que o vírus era capaz de atacar os tumores localizados em áreas profundas no cérebro dos camundongos, através de vasos sangüíneos com soluções de continuidade nos tumores. Isso é especialmente significativo, devido à barreira hematoencefálica, que impede que até os anticorpos humanos normais cheguem ao cérebro. O vírus da estomatite vesicular, por outro lado, foi capaz de ultrapassar essa barreira.

Para atingir resultados ideais com um tratamento viral, o sistema imunológico deve ser aparentemente suprimido. Afinal de contas, para um anticorpo natural, vírus é vírus, mesmo quando o objetivo dele é realizar uma função benéfica. Isso leva à pergunta: o que acontece quando o vírus é criado com a função de destruir os tumores? É possível que o vírus tenha um apetite por células cancerosas, mas será que pode voltar ao tecido saudável na ausência de uma alternativa com câncer? Essa determinação é o próximo passo, diz Van Den Pol.

Outra equipe de pesquisadores em Los Angeles também concluiu que os vírus podem ser úteis na batalha contra o câncer no cérebro. Esses pesquisadores estão seguindo uma abordagem diferente - auxiliando o sistema imunológico natural do corpo. Leia sobre esse tratamento na próxima página.