Vício como uma doença cerebral

Ficamos viciados em uma substância ou atividade pela mesma razão que nos fez experimentá-la: porque gostamos do modo como ela nos faz sentir. E embora muitas pessoas possam experimentar uma droga, tomar uma bebida ou comer um biscoito e nunca ficarem dependentes, praticamente todos nós temos a capacidade de ficar viciados. Os usuários cruzam uma barreira e passam por uma transição até chegarem ao vício.

Como a maconha afeta o cérebro
A maconha age como um neurotransmissor, fixando-se aos
receptores de dopamina e provocando sua liberação no cérebro

A pesquisa fez brilhar uma luz nas mudanças que ocorrem no cérebro após essa transição, desenvolvendo o modelo de "doença cerebral" do vício. Atualmente, é o ponto de vista mais defendido do vício entre a comunidade científica.

A forma como aprendemos a sobreviver baseia-se em um sistema de recompensa. Quando fazemos algo que auxilia nossa sobrevivência, como comer ou nos exercitar, o sistema límbico de nosso cérebro nos recompensa por esse comportamento liberando a dopamina, uma substância química que nos faz sentir bem. E quando gostamos de como nos sentimos, aprendemos a repetir esse comportamento.

Substâncias diferentes aproximam-se do sistema límbico - o centro de recompensa - em nosso cérebro de diferentes maneiras, mas todas as substâncias de abuso fazem o cérebro liberar altos níveis de dopamina. Essa liberação pode ser de duas a dez vezes maior do que a quantidade que nosso cérebro libera normalmente, dando ao usuário a sensação de "barato" ou "animação".

Devido a essa liberação e seu impacto no centro de liberação do cérebro, os usuários aprendem rapidamente a usar uma substância ou empenhar-se em uma atividade. Eles aprendem isso do mesmo modo como aprendem a comer ou fazer exercícios, mas com mais rapidez e intensidade, já que a liberação da dopamina não é muito grande. Como a quantidade de dopamina liberada é anormal, o cérebro esforça-se para recuperar seu equilíbrio químico normal após uma substância diminuir. Isso produz uma ressaca, ou desabituação de uma substância, que pode manifestar-se em dor física, depressão e comportamento perigoso.

Ao longo do tempo, o uso prolongado de uma substância pode fazer o cérebro parar de produzir a quantidade de dopamina que naturalmente produz. Isso cria mais desabituação, levando a uma dependência física - o viciado precisa usar ainda mais a substância para se sentir normal, criando um círculo vicioso que pode ser difícil de quebrar.

Devido a esse processo de aprendizado e à conseqüente dependência física de uma substância, o usuário torna-se um dependente dela. Como resultado, o dependente perde o controle sobre o ato de usar uma substância ou de envolver-se em uma atividade. Isso levou à idéia de que, para curar um vício, a abstinência - suspensão total do uso da substância ou do comportamento - se faz necessária.

Sob o modelo de doença do vício, o centro motivacional do cérebro reorganiza-se. As prioridades são desviadas, para que a descoberta e o uso da substância (ou de outra substância que produzirá efeitos semelhantes) sejam prioridade máxima do cérebro. Nesse sentido, a droga essencialmente tomou conta do cérebro, e o viciado não consegue mais controlar seu comportamento. Um alcoólatra, por exemplo, não terá problema em decidir se vai ou não dirigir até uma loja para comprar mais bebida - o desejo será irresistível.

Mas o fato de simplesmente ir a uma loja para comprar álcool não é sinal de alcoolismo. Então, como você diferencia usar uma substância de estar viciado nela? Na próxima seção, aprenderemos sobre os sintomas do vício.