Transgênicos contra a dengue

Sem ter conseguido controlar a dengue através dos mecanismos tradicionais, o combate à dengue no Brasil ganhou um novo aliado graças a uma tecnologia de ponta. Um mosquito geneticamente modificado é a nova arma na luta contra a doença que registrou 1.452.489 casos no país em 2013 de acordo com números do Ministério da Saúde. Os insetos com a modificação em seu DNA foram desenvolvidos pela empresa britânica Oxitec e entraram em linha de produção na fábrica montada pela companhia na cidade paulista de Campinas.


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A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão responsável pela regulação do uso de transgênicos no Brasil e também pela aprovação de produtos relacionados ao setor, aprovou o desenvolvimento dos mosquitos geneticamente modificados. Todavia, falta ainda a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizar a venda dos mosquitos transgênicos para que eles possam ser utilizados em larga escala no combate à doença.

Aedes aegypti é fabricado para reproduzir filhotes defeituosos

A técnica da empresa envolve a aplicação nos ovos do Aedes aegypti, que é o mosquito transmissor da dengue, de uma substância chamada tetraciclina, considerada não tóxica e inofensiva. A ação dela faz com que os mosquitos nascidos a partir desses ovos tenham dois genes adicionais. É possível produzir um mosquito com essa modificação de DNA em oito dias. A fábrica campineira tem capacidade de criar de oito a dez milhões de unidades do inseto geneticamente modificado por mês.

Dos mosquitos com essa alteração no código genético, apenas os machos são selecionados para a liberação no meio ambiente, uma vez que a transmissão da doença é realizada pelas fêmeas da espécie. Os transgênicos soltos têm a missão de se acasalar com as fêmeas saudáveis encontradas na natureza e passar para os filhotes seus genes defeituosos. Esse processo irá gerar mosquitos frágeis que vão morrer antes de chegar à fase adulta, quando se tornam capazes de transmitir a dengue. Isso, por consequência, reduzirá os índices de transmissão da doença.

Testes no Brasil usaram 55 milhões de mosquitos

Os mosquitos transgênicos foram testados no Brasil por um período de três anos. Isto envolveu a liberação de 55 milhões de insetos geneticamente modificados no interior da Bahia. De acordo com os resultados divulgados pela empresa produtora dos mosquitos, houve uma redução de casos relatados de contaminação de dengue na região de Juazeiro e Jacobina, onde a experiência foi realizada, de 79%, na média. Em alguns bairros, o índice teria chegado a 90%.

Esse, no entanto, não foi o primeiro teste realizado em ambiente aberto pela companhia. A empresa testou o produto pela primeira vez nas Ilhas Cayman, com resultados positivos de acordo com reportagem publicada em 2011 pela revista britânica Nature Biotechnology.

A taxa de sucesso, todavia, não foi total uma vez que nem todas as fêmeas aceitam se acasalar com os transgênicos. Cerca de metade da população feminina de Aedes aegypti nas Ilhas Cayman, de acordo com o relato da Nature Biotechnology, optou pelos mosquitos originais na hora da procriação da espécie, o que manteve o processo de geração de transmissores da doença.

Há ainda questões relativas à ecologia que tornam a iniciativa polêmica. No Panamá, onde testes seriam realizados com o mosquito, associações de preservação do meio ambiente se posicionaram contrariamente à iniciativa alegando que a diminuição do número de mosquitos poderia causar um desequilíbrio ecológico.

Doença tem se mostrado problema sem solução no Brasil

Com números alarmantes desde os anos 90, a dengue tem se mostrado um problema sem solução no Brasil. Apenas nos últimos cinco anos, de acordo com números oficiais, foram registrados mais de 3,2 milhões de casos que levaram a aproximadamente 800 mortes.


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O governo federal, muitas vezes aliado com estados e municípios, promoveu várias campanhas de combate ao mosquito. Todavia, em longo prazo, todas acabaram por fracassar. Ainda não foi desenvolvida uma vacina contra a dengue e a única forma disponível no momento para tentar evitar a doença é eliminar ou controlar o mosquito transmissor.

O mosquito costuma se abrigar em locais onde exista água parada como vasos, baldes, pneus, tampinhas de garrafas ou objetos similares. Por isso, é preciso eliminar esse tipo de "habitação" das casas. Antigamente, o Aedes aegypti apenas se reproduzia onde encontrava água limpa. Porém, ele se adaptou às más condições sanitárias de boa parte das cidades brasileiras e começou a procriar também em esgotos e em água poluída tornando-se mais resistente.

Só mosquito é capaz de transmitir a doença

A dengue só pode ser transmitida através da picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti. Não existe outra forma de contágio. A doença não é transmitida por água, alimentos, objetos, contato pessoal, sexual ou por outros animais. O inseto ataca durante o dia principalmente dentro de casa. A maioria das picadas é dada nas pernas. As mulheres são alvos preferenciais.


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Há dois tipos de dengue. A clássica, que envolve os seguintes sintomas:

* Febre súbita e alta (pode ultrapassar os 40 graus)

* Fortes dores de cabeça

* Manchas vermelhas na pele (similares as que ocorrem quando se tem sarampo)

* Dores atrás dos olhos (que pioram quando se movimenta os olhos)

* Enjoos

* Vômitos

* Moleza

* Cansaço

* Falta de apetite e paladar

* Dor nos ossos e articulações.

O segundo tipo é ainda mais grave. É a chamada dengue hemorrágica, que apresenta os seguintes sintomas:

* Dificuldade de respiração

* Perda de consciência

* Confusão mental

* Agitação

* Insônia

* Sangramento na boca, gengiva e nariz

* Vômitos intensos

* Boca seca

* Muita sede

* Pulso fraco

* Fortes dores abdominais (contínuas)

* Pele pálida, fria e úmida

Tratamento é feito para os sintomas

Não existem remédios para dengue. Os medicamentos são prescritos apenas para diminuir os sintomas e deixar o paciente mais confortável enquanto o organismo trata de combater o vírus enquanto este completa seu ciclo. Durante esse período, é recomendado que o consumo de água seja aumentado e o doente repouse. Também não é permitido tomar qualquer remédio que contenha ácido acetilsalicílico.