Como funciona o sangue

Autor: 
Carl Bianco, MD
sangue

Quando você se corta sem querer, já parou para pensar do que é composto isso que chamamos de sangue? O sangue é a parte do corpo humano que mais passa por testes. Cada célula do corpo obtém seus nutrientes do sangue.

Neste artigo, vamos saber mais sobre o sangue, o que irá lhe ajudar a entender melhor o que seu médico está dizendo quando lhe explica os resultados dos seus exames de sangue. Além disso, você vai aprender coisas incríveis sobre esse líquido maravilhoso e sobre as células que flutuam por ele.

O sangue é uma mistura de células e plasma. O coração bombeia o sangue pelas artérias, vasos capilares e veias para fornecer oxigênio e nutrientes a todas as células do corpo. Ele transporta os dejetos das reações que acontecem nas células.

Foto cedida CDC
Profissional da saúde tirando uma amostra de sangue de um paciente

O corpo humano de um adulto contém aproximadamente 5 litros de sangue, cerca de 7 a 8% do peso corpóreo. O sangue é composto por 2,75 a 3 litros de plasma e a porção restante é composta por células.

Avanços

Cientistas canadenses criam sangue a partir de pele humana. Resultado representa um avanço no tratamento do câncer e outras doenças.

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O plasma é a parte líquida do sangue. As células sangüíneas, como as células vermelhas, flutuam no plasma. Também dissolvidos no plasma estão os eletrólitos, nutrientes e vitaminas, absorvidos pelo intestino ou produzidos pelo corpo, hormônios, fatores coagulantes e proteínas, como a albumina e imunoglobulinas (anticorpos que lutam contra as infecções). É o plasma que distribui essas substâncias enquanto circula pelo corpo.

Já a parte celular do sangue contém as células vermelhas (hemácias), células brancas (leucócitos) e as plaquetas. Elas possuem funções distintas: as hemácias transportam o oxigênio que chega pelos pulmões, os leucócitos auxiliam no controle das infecções e as plaquetas são fragmentos de células que o corpo usa na coagulação.

Células vermelhas


Foto cedida Garrigan.Net
Ilustração: imagem de microscópio das células vermelhas

As células vermelhas, também conhecidas como hemácias ou eritrócitos, são as células mais abundantes do sangue. São elas que dão ao sangue a cor vermelha. Suas quantidades são um pouco diferentes em homens e mulheres: a média nos homens é de 5,2 milhões por mm³ (microlitro), enquanto nas mulheres essa média é de 4,6 milhões. Para você ter uma idéia, as células vermelhas compõem de 40 a 45% do sangue, a porcentagem de células vermelhas no sangue é, freqüentemente, medida e se chama de hematócrito. A relação das células em uma amostra de sangue comum é de 600 hemácias para cada leucócito e 40 plaquetas.

Há várias coisas nas hemácias que as fazem especiais:

  • uma hemácia tem um formato estranho, um disco bicôncavo redondo e achatado, como se fosse uma tigela rasa;
  • uma hemácia não possui núcleo, que é expulso da célula durante o processo de maturação;
  • elas podem mudar bastante de forma, sem quebrar enquanto se espremem pelos capilares. Os capilares são vasos sangüíneos minúsculos pelos quais o oxigênio, nutrientes e dejetos são trocados com o resto do corpo;
  • as células vermelhas contêm hemoglobina, uma molécula especialmente projetada para armazenar oxigênio e transportá-lo para as células.

A função principal das células vermelhas é transportar oxigênio dos pulmões até as outras células do corpo. Elas conseguem fazer isso porque possuem uma proteína chamada hemoglobina, que é a responsável por transportar o oxigênio.

Nos capilares, o oxigênio é liberado e pode ser usado pelas células do corpo. É a hemoglobina que carrega 97% do oxigênio que chega aos pulmões e é transportado pelo sangue, enquanto os 3% restantes são dissolvidos no plasma. Graças à hemoglobina, o sangue pode transportar de 30 a 100 vezes mais oxigênio do que poderia ser dissolvido no plasma se elas não existissem.

A hemoglobina se associa livremente com o oxigênio nos pulmões, onde o nível de oxigênio é bem alto, para depois liberá-lo nos capilares, cujo nível de oxigênio é baixo. Uma molécula de hemoglobina contém quatro átomos de ferro, cada um deles podendo se ligar a uma molécula de oxigênio, que é formada por dois átomos de oxigênio, na fórmula O2,, o que dá um total de quatro moléculas (4 * O2) ou oito átomos de oxigênio para cada molécula de hemoglobina. Lembra que falamos que as hemácias são as responsáveis pela coloração vermelha do sangue? Pois é, para sermos ainda mais específicos, o responsável por isso é o ferro existente na hemoglobina.

33% de uma hemácia é de hemoglobina. A concentração normal de hemoglobina no sangue é de 15,5 gramas por decilitro nos homens e 14 gramas por decilitro nas mulheres. (Um decilitro são 100 mililitros ou um décimo de um litro.)

Além de transportar o oxigênio para as células do corpo, os eritrócitos também ajudam a remover o dióxido de carbono (CO2). Esse se forma nas células como um subproduto de várias reações químicas, vai para o sangue pelos capilares e é trazido de volta aos pulmões, onde é liberado e expirado por nós na respiração. As hemoglobinas têm uma enzima chamada anidrase carbônica, que ajuda a reação entre o dióxido de carbono (CO2) e a água (H2O) acontecer 5 mil vezes mais rápido. O resultado dessa reação é o ácido carbônico, que, por sua vez, se separa em íons hidrogênio e íons bicarbonato:

Anidrase carbônica

CO2 + H2O ===> H2CO3 + H+ + HCO3-

dióxido de carbono + água ==> ácido carbônico + íon hidrogênio + íon bicarbonato

Os íons hidrogênio posteriormente se combinam com a hemoglobina, enquanto os íons bicarbonato entram no plasma. 70% do CO2 é removido do nosso corpo dessa forma, 7% do CO2 é dissolvido no plasma e os 23% restantes se combinam diretamente com a hemoglobina (sem passar pela reação com a água) e são liberados nos pulmões.

Todas as células sangüíneas são produzidas na medula óssea. Quando somos crianças, a maioria dos nossos ossos produz sangue, mas conforme vamos envelhecendo, essa produção vai passando somente para os ossos da espinha (vértebras), esterno, costelas, bacia e pequenas porções do braço e da perna. A parte da medula óssea que continua a produzir células sangüíneas recebe o nome de medula vermelha, enquanto o restante da medula óssea é chamado de medula amarela. O processo pelo qual o corpo produz sangue é a hematopoese.

Todas as células sangüíneas (vermelhas, brancas e plaquetas) originam-se do mesmo tipo de célula, a célula tronco hematopoiética pluripotencial. Esse grupo de células tem o potencial de formar qualquer um dos diferentes tipos de células sangüíneas e de reproduzir a si própria. Posteriormente, forma células tronco prontas para criar os diferentes tipos de células sangüíneas.

Durante a formação, as hemácias acabam perdendo seus núcleos e deixam a medula óssea como reticulócitos, que ainda contêm alguns restos de organelas. Mas essas organelas, eventualmente, deixam a célula e o eritrócito maduro é formado. Os eritrócitos duram uma média de 120 dias na corrente sangüínea e são removidos por macrófagos no fígado e no baço.

Os responsáveis pela regulação da produção de células vermelhas são o hormônio eritropoietina e níveis baixos de oxigênio. Qualquer fator que diminua o nível de oxigênio no sangue, como doenças pulmonares ou anemia (número baixo de hemácias), aumenta o nível de eritropoietina, que estimula as células tronco a produzirem mais células vermelhas e aumenta a rapidez com que elas maturam. 90% da eritropoietina é criada nos rins. É por isso que quando os rins são removidos ou quando a pessoa apresenta insuficiência renal, ela se torna anêmica: ocorre a falta de eritropoietina. E, finalmente, outros componentes essenciais para a produção de células vermelhas são o ferro, vitamina B-12 e ácido fólico.