Estudos e pesquisas sobre a obesidade e a desnutrição no Brasil

Autor: 
Isabela Benseñor,Paulo Lotufo

Para avaliar a desnutrição e a obesidade usam-se o peso e a altura. Dividindo-se o peso pela altura ao quadrado, pode-se obter o índice de massa corpórea (veja o quadro abaixo). Esse índice corrige o peso para a altura e permite classificar se a pessoa é magra, normal, com sobrepeso ou obesa. Essa classificação, muito usada nos dias atuais mesmo em academias destinadas à prática de atividade física, foi proposta pela Organização Mundial da Saúde para padronizar essas medidas no mundo e os países poderem comparar seus dados. Essa medida foi desenvolvida pelo matemático belga Lambert Adolphe Jacques Quételet (1976-1974), por esse motivo também é chamada de Índice de Quetelet.

Fórmula para obter o Índice de Massa Corpórea (IMC)

IMC = Peso/ Altura2
O Peso deve ser colocado em quilogramas (kg) e a altura deve ser colocada em metros (m). Exemplo: para uma pessoa com 1,75 m de altura e 65 kg, o IMC é calculado assim: 65/(1,75 x 1,75), ou 65/3,0625, resultando em IMC de 21,22.

Dois grandes estudos brasileiros realizados em 1974-75 e 1989, nas cinco regiões do país (Norte, Nordeste, Centro-oeste, Sudeste e Sul), chamados de Estudo Nacional de Despesa Familiar (ENDEF) e Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN) avaliaram a presença do IMC abaixo do normal (‹18,5 kg/m2) em adultos. Em 1975, a freqüência de pessoas muito magras (desnutridas) era quase o dobro da de pessoas obesas. Quando os dados foram reavaliados em, 1989, essa relação tinha se invertido, ou seja, o número de obesos superou o número de indivíduos muito magros em mais que duas vezes.

Outra pesquisa mais recente, Pesquisa de Padrões de Vida de 1997-98 (PPV), coletou informações referentes às duas regiões mais representativas do Brasil, em termos sócio-econômicos e populacionais: Sudeste e Nordeste, sendo a primeira região a mais economicamente desenvolvida e a segunda a menos. As duas em conjunto concentram aproximadamente 70% da população brasileira.

Dados do ENDEF revelaram prevalências de obesidade (IMC ≥ 30 kg/m2 ) em torno de 6,0% em mulheres e 2,1% entre os homens. Segundo a PNSN, a prevalência de obesidade aumentou em 100% na população masculina (4,1%) e em torno de 70% na feminina (10,9%). Na Pesquisa de Padrões de Vida foi observada tendência ainda crescente do excesso de peso, mas em menor escala, principalmente na população feminina. As prevalências observadas nesse período foram de 6,4% e 12,4%, entre homens e mulheres brasileiras, respectivamente.

Freqüência de obesidade em estudos das últimas três décadas

Estudo Homens IMC > 30 kg / m2 Mulheres IMC > 30 kg / m2
Estudo Nacional de Despesa Familiar (ENDEF)

1974 - 1975

2,1 %

6,0 %

Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN)

1989

4,1 %

10,9 %

Pesquisa de Padrões de Vida de 1997 - 1998 (PPV)

1997-1998

6,4 %

12,4 %

Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF)

2003

8,9 %

13,0 %

Dados recentes da última pesquisa, que englobou as cinco macrorregiões brasileiras, realizada em 2002-03, denominada Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), revelaram que o excesso de peso, em adultos, excedeu em oito vezes o déficit de peso na população feminina e em quinze vezes na população masculina.

Entre os adultos envolvidos na pesquisa, maiores de 20 anos, 4% apresentavam baixo peso enquanto 40,6% foram considerados com excesso de peso (IMC entre 25 e 29,9 kg/m2), e dentre esses aproximadamente 20% foram diagnosticados como obesos (IMC 30 kg/m2) A freqüência de obesidade para homens e mulheres foi, respectivamente, de 8,9% e 13%. A figura 1 (abaixo) mostra o aumento da obesidade na cidade de São Paulo (dados do CVE, CES, SP publicados por Luiz Francisco Marcopito e colaboradores).


 

Na década de 70 havia mais desnutrição do que obesidade. No final da década de 80, a obesidade já havia ultrapassado a desnutrição. E nos últimos anos a obesidade vem crescendo progressivamente. O comportamento do aumento de peso foi diferente entre homens e mulheres. Primeiro as mulheres ganharam mais peso e depois foram os homens. As figuras 2 e 3 (abaixo) mostram o declínio da desnutrição e o aumento da obesidade respectivamente em homens e mulheres (Dados da ENDEF, PNSN, POF).

 

 


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A associação positiva entre renda e obesidade, quanto maior a renda maior a obesidade, foi descrita em homens da região Nordeste e isso é uma característica de países em desenvolvimento, em que a pobreza extrema limita o acesso à alimentação, com altos gastos energéticos, advindos de atividades de trabalhos pesados. Entretanto, na população feminina, houve uma associação inversa entre educação e obesidade (quanto maior a educação, menor a obesidade). I

Isso foi observado na região Sudeste. A exemplo do que ocorre em sociedades desenvolvidas, a educação permitindo um melhor conhecimento sobre os benefícios de uma dieta balanceada e saudável e a prática de exercícios físicos regularmente, faz com que haja uma preocupação maior com o controle do peso e uma alimentação mais saudável. Além disso, o padrão de beleza relacionado com “ser magro” permite uma maior inclusão social sendo muito valorizada.

Observando o país como um todo, o estrato que apresentou maior crescimento de obesidade nas últimas décadas, foi o das mulheres de maior nível sócio-econômico da região Nordeste e o estrato com menor proporção de obesidade foi o de mulheres com melhor educação na região Sudeste. No Brasil, as prevalências de obesidade, entre as mulheres adultas acima de 20 anos, na década de 70, eram preponderantes nos estratos de maior poder aquisitivo tanto da região Sudeste (7,9%), como na região Nordeste (6,7%); essas mesmas tendências foram observadas até o fim dos anos 80, com um aumento mais acentuado no Sudeste (14% SE vs 9,8% NE).

A partir da PPV em 1997, pela primeira vez na história nutricional do Brasil foi registrado um declínio da obesidade no estrato das 25% mais ricas mulheres do Sudeste (8,9%), mas continuou em ascensão no estrato correspondente do Nordeste (14,5%). Concomitantemente a maior prevalência de obesidade no Sudeste, passou ser observada no segmento das 25% mais pobres mulheres (14,1%), que correspondia as que possuíam renda per capita mensal de até meio salário mínimo vigente na época. O estrato menos favorecido do Nordeste continuou a apresentar cifras crescentes de obesidade, mas em menor magnitude (7,7%).

No início do século XXI, os dados da POF mostram as mesmas tendências do final dos anos 90 continuaram a serem observadas; a obesidade permaneceu elevada entre as classes sócio econômicas menos favorecidas. Taxas em torno de 20 a 26% de excesso de peso foram encontradas na população masculina em famílias com renda de até meio salário mínimo per capita. Entre as mulheres, as prevalências de sobrepeso (42%) e obesidade (14%) foram maiores entre os estratos de renda de um até dois salários mínimos per capita, reduzindo as cifras a partir dois salários mínimos.