Tratamento psiquiátrico na década de 30: a origem da lobotomia

Embora já tivesse passado muito tempo da época em que simplesmente se controlava e trancava os portadores de doença mental, o tratamento psiquiátrico na década de 30 ainda era muito limitado. Basicamente, não havia nenhum tratamento para pacientes esquizofrênicos, por exemplo. Os psiquiatras tentavam tratar seus sintomas prescrevendo medicamentos como sedativos, que suprimiam seu sistema nervoso, e experimentando várias terapias diferentes de mente-corpo.

Os esquizofrênicos faziam hidroterapia na forma de banhos quentes ou frios durante horas seguidas. Também havia alguns tipos diferentes de terapia de choque: insulina, Metrazol e terapia eletro convulsiva (TEC). Todas elas provocavam convulsões nos pacientes. Muitos psiquiatras afirmavam que essas terapias agiam "dando choque" nos pacientes como resultado de suas doenças. Outros acreditavam que havia uma ligação entre epilepsia e esquizofrenia - um paciente que tinha a primeira, mesmo que fosse induzida, não poderia ter a segunda.

lobotomia
© istockphoto.com / Christine Glade
A ideia da psicocirurgia é que formas graves de doenças mentais podem ser tratadas mudando-se o funcionamento do cérebro

Esses tratamentos geralmente não curavam os esquizofrênicos, depressivos e outros portadores de doenças mentais; a maioria entrava e saía de hospitais ou acabava passando o resto da vida neles. Além disso, os hospitais nos Estados Unidos viviam superlotados - por volta de 1940, havia cerca de 1 milhão de pacientes, e a população crescia em torno de 80% anualmente [fonte: Dully]. As condições também eram degradantes devido à falta de recursos durante a Grande Depressão. Os hospitais públicos sofriam com a carência de profissionais, e os pacientes geralmente ficavam sem qualquer tipo de tratamento. As pessoas abraçaram a idéia de uma cura simples e rápida e tinham esperança de que a cirurgia pudesse proporcioná-la.

Em 1933, dois neurologistas do Laboratório de Primatas de Yale, Dr. John Fulton e Dr. Carlyle Jacobson, realizaram experimentos em dois macacos chamados Becky e Lucy. Após testarem a inteligência dos macacos, os médicos removeram metade dos lobos frontais de seus cérebros e fizeram novos testes. Aparentemente, os animais conservaram suas habilidades e inteligência. Fulton e Carlyle, então, retiraram a outra metade dos lobos frontais dos macacos. As personalidades de Becky e Lucy mudaram - eles não ficavam mais violentos e frustrados quando não recebiam de imediato suas refeições após o término de um teste. Os macacos ainda conseguiram completar os testes, embora não tão bem.

Dr. Moniz assistiu à apresentação de Fulton sobre seu trabalho em uma conferência, em 1935. Ele viu semelhanças entre o comportamento dos macacos antes da cirurgia e o comportamento de seus pacientes portadores de doença mental. Moniz concluiu que poderia realizar uma operação levemente diferente nas pessoas para separar a emoção da razão, preservando sua inteligência. Ele e seu colega Dr. Lima fizeram vários experimentos em cérebros de cadáveres antes de tentarem fazer uma lobotomia em um paciente vivo. Após aperfeiçoar sua técnica, Moniz alegou sucesso - seus pacientes lobotomizados estavam serenos e não ficavam mais ansiosos.

No ano seguinte, Moniz compartilhou suas descobertas em revistas médicas e conferências, e a recepção foi mista. Alguns psiquiatras ficaram bastante preocupados com a idéia de que uma cirurgia que destruiria os tecidos saudáveis do cérebro pudesse curar doenças mentais. Aceitar a psicocirurgia também significava reconhecer que outras formas de terapia, como o campo crescente da psicanálise, poderiam não funcionar.

Entretanto, muitos psiquiatras e neurologistas ficaram intrigados, dentre eles o Dr. Walter Freeman. Sua defesa da cirurgia finalmente incluía um "lobotomobile", uma van personalizada em que ele demonstrava sua técnica à imprensa e aos médicos em hospitais psiquiátricos. Ele gostava de se exibir penetrando as duas cavidades oculares simultaneamente com dois orbitoclasts diferentes. Críticos compararam Freeman a um pregador pela causa, enquanto defensores afirmavam que fazer uma lobotomia era tão seguro e fácil quanto fazer uma obturação no dentista. Quando Howard Dully recebeu os registros da lobotomia a que foi submetido quando criança, descobriu que a cirurgia tinha custado a seus pais menos de US$200. As lobotomias acabaram com a superlotação dos hospitais e, ao contrário de outros tratamentos psiquiátricos, elas prometiam resultados imediatos.

No entanto, a chamada "revolução da lobotomia" durou menos de 20 anos. A seguir, veremos como ela caiu em desgraça e o que está acontecendo com a psicocirurgia hoje.