Cirurgia da alma: sucessos e fracassos nos pacientes de lobotomia

Nos Estados Unidos, cerca de 50 mil pacientes foram submetidos à lobotomia, a maioria entre 1949 e 1956. O próprio Dr. Freeman realizou entre 3.500 e 5.000 delas. Ele chamava as lobotomias de "cirurgia da alma" e afirmava que podiam ser usadas para tratar não apenas esquizofrenia, mas depressão, dor crônica e outros problemas físicos e mentais. Freeman e outros médicos que praticavam a lobotomia acreditavam que ela podia aliviar o sofrimento. Em alguns casos, realmente podia.

Freeman realizou pela primeira vez a lobotomia transorbital em Ellen Ionesco, em 1946. Sua filha, Angelene Forester, descreveu-a como sendo uma pessoa violentamente suicida. Depois da lobotomia de Ellen, Angelene disse que "correu tudo bem [...] foi como virar a moeda. Rápido. Independentemente do que ele tenha feito, foi a coisa certa" [fonte: NPR]. Patricia Moen, que também era suicida, foi lobotomizada por Freeman em 1962. Mais tarde, Patricia disse que ela "simplesmente passou a viver novamente". Glenn, seu marido, ficou "feliz com a forma como tudo terminou".

Nem todos os pacientes ficaram tão felizes com a vida depois da lobotomia. Howard Dully foi lobotomizado por Freeman quando tinha 12 anos de idade, em 1960. Ele não apresentava problemas mentais; sua madrasta queria mudar sua personalidade, que alegava ser rebelde. Só bem mais tarde que Dully ficou sabendo da operação. Ele diz que "a cirurgia me prejudicou de muitas maneiras. Mas ela não me 'consertou', nem me transformou em um robô. Por isso, minha família me colocou em uma instituição" [fonte: Dully]. Howard afirma que sempre se sentiu diferente, "envergonhado", como se fosse "uma aberração". Viveu em instituições durante uma década e lutou contra diversos vícios até completar 50 anos.

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Os médicos acreditavam que, cortando as ligações que os lobos frontais tinham com o resto do cérebro, eles conseguiriam acalmar as emoções dos paciente

Um dos fracassos mais famosos de Freeman foi a irmã de um presidente americano. Em 1941, Rosemary Kennedy, irmã de John F. Kennedy, foi lobotomizada aos 23 anos. Rosemary era descrita como uma criança tímida e tranqüila, mas na adolescência, ficou rebelde e mal humorada. Um médico sugeriu que uma lobotomia poderia acalmá-la. Na época, Freeman só tinha feito cerca de 60 lobotomias, e como ainda não tinha criado sua técnica transorbital, ele realizou uma lobotomia pré-frontal.

A operação deixou Rosemary mais controlável, pois ficou essencialmente com capacidade mental de um bebê. Ela não conseguia falar com clareza, nem controlar algumas funções do corpo; além disso, passava horas olhando para o nada. Rosemary passou o resto da vida em uma instituição. Alguns pesquisadores afirmaram que ela já apresentava retardo mental leve antes da lobotomia, enquanto outros dizem que ela tinha uma forma de doença mental. Em geral, Rosemary era descrita como retardada mental. Sua irmã Eunice Kennedy Shriver ajudou depois a fundar as Olimpíadas Especiais em sua homenagem.

Outros pacientes que se submeteram à lobotomia também tiveram resultados negativos. Anita McGee foi lobotomizada por Freeman em 1953 por conta da depressão pós-parto. Sua filha Rebecca Welch a descreve como "está lá, mas não está" [fonte: NPR]. Anita passou o resto da vida em instituições. Beulah Jones foi lobotomizado no final da década de 40 devido à esquizofrenia. A filha Janice-Jones Thomson declarou que, depois, "não houve nenhuma mudança em seu comportamento, a não ser pelo fato de que perdeu seu intelecto mais alto. Ela não conseguia mais sentar nem ler. Raramente conseguia escrever. Ela não tinha memória de longo prazo" [fonte: PBS].

O neurologista Dr. Elliot S. Valenstein falou sobre as lobotomias: "houve alguns resultados muito desagradáveis, alguns muito trágicos e alguns excelentes, mas houve muitos intermediários" [fonte: Valenstein]. Ironicamente, o procedimento não conseguia curar os esquizofrênicos. De acordo com o neurocirurgião Dr. Frank Vertosick, "ao contrário da depressão e da obsessão, que são desordens do humor, a esquizofrenia é um distúrbio do raciocínio. E o que uma lobotomia altera é o estado emocional, não as habilidades cognitivas" [fonte: Vertosick].

Se os resultados foram tão variados, então, por que as lobotomias se tornaram uma forma de tratar doenças mentais? A resposta está na condição do tratamento psiquiátrico na época em que a lobotomia foi popularizada.