O surgimento do incenso e dos perfumes sólidos

Durante milhares de anos pelo mundo todo, a fumaça perfumada tem purificado o ar e confortado indivíduos que precisavam de ajuda física, emocional ou espiritual. No começo, jogar alguns galhos perfumados de plantas em fogueiras atingia o objetivo, mas o incenso sólido foi criado, usando-se sementes e plantas misturadas com mel, moldados em cubos sólidos e colocados em um carvão da fogueira. Em muitas culturas, fogueiras elaboradas para cerimoniais eram projetadas para sustentar cubos de incenso queimando em sua parte superior.

O barulho das plantas perfumadas logo se desenvolveu para a produção de incenso, usando-se sementes e mel para unir os aromas.
Maurice Koop
O barulho das plantas perfumadas logo se desenvolveu para
a produção de incenso, usando-se sementes e mel para unir os aromas

Purificação

Templos antigos, salas de conselho e casas usavam o incenso mais liberadamente do que o fazemos com aromatizantes de ar. Ele era uma pequena maravilha, já que podia dispersar o cheiro desagradável das condições de vida pouco sanitárias. Na Europa, Arábia, Índia, China e por toda a América do Norte, as casas eram defumadas para expulsar os maus espíritos que causavam doenças e, ao mesmo tempo, livravam as casas de moscas e insetos. Durante epidemias, as pessoas que se concentravam nos templos e nas igrejas provavelmente eram ajudadas com a queima de ervas anti-sépticas. Acredita-se que Hipócrates, o pai da medicina, tenha livrado Atenas de uma praga queimando plantas perfumadas, assim como Moisés e Aarão fizeram no deserto (Num 16:46-50).

Doenças respiratórias e reumáticas, dores de cabeça e desmaios eram tratados com a inalação da fumaça vinda de plantas aromáticas e, algumas vezes, ervas aromáticas molhadas. Outras vezes seus chás eram derramados em pedras quentes para criar um vapor que era inalado. As duas técnicas provaram ser eficazes no tratamento da congestão nasal, problemas no pulmão e dores de ouvido.

Durante cerimônias religiosas ou de cura, os americanos nativos queimavam maços de ervas perfumadas e tranças de capim com cheiro semelhante ao de baunilha e se cercavam de fumaça. Para curar os doentes, pedras soltando vapor do chá de solidago, pulicária, flores selvagens e equinácea eram colocadas perto do paciente e cobertas com peles ou lençóis, para formar uma espécie de mini-sauna.

Aromata versátil

O incenso provou ser imensamente versátil por toda a Europa, Arábia e Índia: foi usado como perfume, como medicina aromática e até como refrescante bucal. Lembre-se de que os incensos antigos continham somente ervas, sementes de plantas e mel (somente depois de muito tempo o carvão vegetal e o salitre não comestível foram adicionados a ele para que, depois de acesos, continuassem queimando). Uma vez que a maioria das ervas era altamente anti-séptica, quando elas eram esfregadas na pele e derretidas pelo calor do corpo, liberavam cheiro e desinfetavam os ferimentos. O incenso era até ingerido como remédio. Não é de surpreender que a palavra grega aromata tivesse vários significados: incenso, perfume, condimento e medicina aromática. Os chineses também tinham uma palavra, heang, que descrevia perfume, incenso e o conceito de fragrância.

Acreditava-se ainda que alguns ítens aromáticos ajudassem na perda de peso, na digestão e na regularização do ciclo menstrual. O perfume romano mais famoso, Susinon, quando ingerido, era diurético e aliviava vários tipos de inflamação. Amarakinon tratava indigestão, hemorróidas e adiantava menstruações, tanto quando era ingerido quanto quando era aplicado diretamente no local a ser tratado. Ele também era usado como perfume. Espicanardo era o ingrediente principal de outro perfume que podia ser tomado como pílula para a garganta, para aliviar tosse e laringite.

Uma intoxicação da mente e das emoções

Em todo o mundo, o incenso tem sido usado para afetar a mente e as emoções das pessoas. Segundo os japoneses, ele estimula a comunicação com o transcendente, purifica a mente e o corpo, mantém as pessoas alertas, atua como companheiro nos momentos de solidão e traz momentos de paz no meio da correria. A fumaça perfumada que sai dos queimadores de incenso de bronze chineses eram classificadas de seis formas básicas: tranqüila, solitária, exuberante, bonita, refinada e nobre.

Certas plantas eram queimadas devido a suas propriedades inebriantes ou afrodisíacas. Em Délfis, Grécia, as sacerdotisas do oráculo sentavam-se em banquetas sobre buracos no chão, que emitiam fumaça de folhas de louro, para inspirar suas visões. Embora pouco do esplendor de Délfis permaneça até hoje, ainda é possível ver as câmaras de incenso escondidas embaixo do chão. As mulheres do Tibet, chamadas de adivinhas, cobriam suas cabeças para inalar a fumaça de cedro, o que as induziria ao canto profético. Plantas aromáticas com propriedades hipnóticas eram usadas de modo semelhante pelos aborígenes australianos e pelos americanos nativos.

Cleópatra usou o feitiço do cheiro para encantar Marco Antônio. Seus escravos ventilavam fumaça de incenso no navio. Em Antônio e Cleópatra, Shakespeare descreve estas viagens como "tão perfumadas que os ventos ficavam apaixonados por elas". Isso provavelmente não ficava longe da verdade, já que se acredita que o cheiro que ela escolhia fosse o delicioso cheiro de henna, mencionado na Canção de Salomão - e que se acreditava ser afrodisíaco.

Utilizações religiosas do incenso

Em quase todas as culturas acreditava-se que o incenso atraía deuses e deusas, afastava os maus espíritos e purificava o corpo e a alma. Pessoas da Antigüidade, acreditando que o espírito e a vida entrassem no corpo através da respiração, também pensavam que a inalação de certos odores os levaria para perto de Deus. A fragrância era ligada ao divino porque era invisível, misteriosa e atrativa. Eles chamavam de aroma a alma da planta e achavam que isso era um presente de Deus. Eles também acreditavam que as divindades achariam que as preces, ditas na fumaça e elevadas aos céus, seriam mais prazerosas se fossem aromatizadas.

Sua associação com a sensualidade e o uso excessivo pelos árabes, romanos e judeus deu ao incenso uma má reputação entre a maioria dos cristãos antigos. Entretanto, algumas seitas os usavam exclusivamente para cerimônias religiosas. Os critãos gnósticos do século 1 ao 4 foram profundamente influenciados pela filosofia egípcia e adotaram as crenças antigas de que a fragrância de uma planta está associada à alma do homem. Às vezes a igreja católica usava o incenso para purificar e abençoar suas estáruas, relíquias, altares e os que estavam participando da missa.

Para os taioístas chineses, a fragrância também tinha um significado religioso. Entre os 10 mil ritos do budismo taioísta, acredita-se que "a queima do incenso tem prioridade", representando a libertação da alma das limitação do mundo material. Para aprimorar sua experiência, às vezes eles incorporavam plantas psicoativas como a cannabis em seus incensos. O queimador de incenso, chamado fa lu, tornou-se um objeto de devoção.

A arte e prática do cheiro

Embora os japoneses tenham começado a usar o incenso relativamente tarde, eles desenvolveram rapidamente uma arte sofisticada chamada koh-do, que foi ensinada em escolas especiais. Ainda praticada por algumas pessoas atualmente, os participantes da cerimônia do incenso tinham que tomar banho e vestir roupas limpas, para não trazerem odores para a sala. Então, eles tentavam adivinhar as diferentes características do incenso. O vencedor ia para casa com um prêmio.

Os japoneses, durante os períodos Nara e Kamakura (de 710 a 1333 da era cristã), eram particularmente práticos quando apareceu o uso caseiro dos incensos. Um relógio mudava de cheiro conforme passava o tempo. Um outro, ainda mais sofisticado, anunciava o tempo de acordo com qual chaminé emitisse fumaça. A gueixa até sabia onde seus clientes estavam pela quantidade de incenso que havia sido queimada. Um apoio para cabeça especial chamado kikohmakura soltava fumaça perfumada nos cabelos das mulheres e os kimonos eram pendurados em um armário com fumaça perfumada.

O primeiro romance do mundo, Príncipe Genji, escrito por Lady Murasaki Shikibu no século 11, descreve a prática da aromatização das mangas de um kimono. Pequenos queimadores de incenso eram "mantidos por um tempo dentro de cada manga", para que o cheiro entrasse por onde quer que um movimento pudesse ser feito pela mão.

A elite européia também perfumava suas mangas. As damas da corte prendiam pingentes cheirosos, que continham perfumes sólidos importados da Arábia, nas mangas de seus vestidos de veludo. Elas também deixavam o perfume nos medalhões que colocavam no pescoço, onde poderiam ser facilmente cheirados. O óleo de flor de laranjeira era extraído e misturado com polpa de amêndoa prensada para fazer ungüentos perfumados muito populares. Pomme d’ambre, por outro lado, eram balas de âmbar cinza, condimentos, mel e vinho penduradas no cinto em um recipiente pequeno e perfurado. Até mesmo o menor movimento de uma saia envolveria alguém em uma fragrância.

Outro grande passo na evolução da aromaterapia foi o aparecimento dos óleos corporais. Trataremos desse desenvolvimento na próxima seção.

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