por Kathi Keville - traduzido por HowStuffWorks Brasil
Neste artigo
1.
2.
O comércio das fragrâncias
3.
4.
O comércio das fragrâncias
Na Antigüidade, assim como hoje, óleos essenciais normalmente usados, como o olíbano (também conhecido como franquincenso), eucalipto, gengibre, patchouli e pau-rosa vinham das partes mais distantes do globo. Esses componentes vitais para cerimônias religiosas, medicina, comida, cosméticos e afrodisíacos tinham muita demanda e eram mais caros do que metais preciosos e jóias. Embora cada região pudesse produzir roupas, abrigo e comida a partir dos recursos de seus próprios territórios, as pessoas de todos os países procuravam por cheiros raros e exóticos, que literalmente dessem sabor às suas vidas e um ar de mistério às suas cerimônias.
A demanda pelos materiais aromáticos, combinada com o fato de eles serem portáteis, levou ao estabelecimento de um comércio de longa distância. Felizmente, as sementes e ervas podiam ser secadas, os eucaliptos podiam ser enrolados em grãos e as fragrâncias podiam ser infundidas em óleo ou perfumes sólidos, retendo ou melhorando suas propriedades, o que os tornou ainda mais fáceis de serem transportados e relativamente difíceis de serem danificados.
Com o comércio e a paixão pelas fragrâncias vieram a aventura e a intriga. Frotas de navios cruzavam os oceanos, exploradores arriscavam suas vidas viajando por vastos desertos, guerras eram iniciadas devido a disputas de terras e direitos de comércio, reinos eram conquistados ou perdidos e o amor florescia: tudo em busca de fragrâncias. Como resultado, a busca pelas fragrâncias foi mais responsável pelo desenrolar da história do mundo moderno do que qualquer outro fator em particular.
Início babilônico
Ninguém sabe ao certo quando o comércio começou, mas um pedido de importação de cedro, mirra e cipreste foi encontrado inscrito em um bloco de argila da antiga Babilônia. Há mais de 5 mil anos, quando os egípcios ainda estavam aprendendo a escrever e a fazer tijolos, eles já estavam importando grandes quantidades de mirra, seu mais valioso produto de importação. Com certeza havia rotas de comércio pelo Oriente Médio para se obter mirra e outras fragrâncias antes de 2000 a.C. e elas foram bastante usadas durante os 30 séculos seguintes.
O comércio por terra significava meses exaustivos cruzando desertos áridos e transpondo difíceis passagens montanhosas, sendo ameaçados por bandidos. Por isso, esses produtos logo começaram a ser transportados pelo mar, levando a melhorias nas técnicas de navegação, nas embarcações e na navegação em si. Os ventos de monção carregavam as canoas de duas velas pela rota da canela nos mares do sul. Mais tarde, os comerciantes egípcios (e às vezes os romanos) tiravam proveito desses mesmos ventos e iam para a Índia no verão e voltavam para casa no inverno.
O cheiro da realeza
Transportar e negociar não é uma arte nova. Ela foi intensivamente usada no antigo comércio das fragrâncias. A grande rainha ecípcia Hatshepsut, por exemplo, conhecia uma oportunidade de negócios quando via uma. Um de seus grandes feitos foi mandar uma expedição para Punt, na costa africana, para estabelecer o que seria um negócio muito lucrativo. Ela também trouxe de volta para o Egito 31 árvores de mirra, que foram plantadas em um jardim botânico que formava a passagem para o seu sólido templo, Deir al-Bahari, perto de Tebas. As imagens das árvores de mirra esculpidas em baixo-relevo nas paredes do templo podem ser vistas até hoje.
Outras rainhas tiveram um impacto semelhante na história aromática. Quando a rainha de Sabá visitou o Rei Salomão da corte de Israel, foi para discutir o comércio das fragrâncias. Algumas fontes dizem que ela era do sudoeste da Arábia, terra do olíbano e da mirra, mas é mais provável que ela fosse rainha de uma tribo do norte da Arábia que comercializava a resina de terebinto da árvore de pistache.
Algumas vezes, a fragrância simplesmente seguiu as pegadas dos famosos. Por exemplo, as conquistas de Alexandre, o Grande, tiveram pouco a ver com a busca de materiais fragrantes. Na verdade, ele as desprezava porque o faziam se lembrar de seus inimigos persas e ele, com desdém, jogou fora uma caixa de ungüentos de valor incalculável da tenda do rei Dario, depois de vencê-lo na batalha de Issos. Entretanto, depois de alguns anos viajando pela Ásia, ele se convenceu dos prazeres das finas fragrâncias e passou a untar seu corpo com óleos perfumados e a manter incensos queimando próximo ao seu trono.
Mercado mundial
Atualmente as cidades prosperam e vão à falência devido ao preço do petróleo. Na Antigüidade também, mas eram óleos perfumados e condimentos e não combustível que alimentavam o crescimento de cidades-chave pelas avenidas de comércio. Com a introdução dos camelos e animais de carga, a cidade de Alexandria se transformou em um centro comercial que ligava várias rotas, inclusive uma para a Arábia, a 3.220 km de distância.
Por volta do século 4 a.C., a Babilônia tinha um mercado próspero, negociando cedro do Líbano, cipreste, pinho, resina de pinheiro, murta, cálamo e junípero. Atenas era famosa por suas centenas de lojas que vendiam óleos corporais e incensos/perfumes sólidos. Comerciantes fenícios negociavam cânfora chinesa, canela indiana, pimenta preta e sândalo. A África, o sul da Arábia e a Índia forneciam capim cidreira, gengibre e nardo, cuja rizoma tem uma fragrância exótica. A China importava óleo de gergelim com cheiro de jasmim da Índia e da Pérsia, água de rosas pela Rota da Seda e, às vezes, aromas da Indonésia: cravo-da-índia, benjoim, gengibre, noz moscada e patchouli. Os negociantes mais espertos sabiam quais lugares produziam os melhores óleos e fragrâncias.
Fortuna perfumada
Desde a Antigüidade, a riqueza e o poder têm podido se afogar nas fragrâncias. Na verdade, isso aconteceu literalmente com um romano azarado. Ele se asfixiou quando os painéis entalhados de marfim do teto da sala de jantar do Imperador Nero deslizaram para a sala de banhos dos convidados, que descansavam em almofadas no chão, com centenas de quilos de pétalas frescas de rosas. Os romanos ricos se viciavam tanto em fragrâncias que o governador Leptadeni, em 188 a.C., lançou um edital proibindo tal excesso.
A população romana não deu muita atenção a essa proibição e a demanda pelo inceso só cresceu. No primeiro século d. C., os romanos estavam queimando 2.800 toneladas de franquincensos importados e 550 toneladas de mirra (essas duas ervas eram mais caras do que o ouro) por ano. Como resultado, o Imperador Augusto quintuplicou o número de navios comerciais que navegavam entre o Egito e a Índia, de vinte para cem.
A cultura islâmica também era rica em fragrâncias e as usava muito na medicina, em cosméticos e na culinária. Misturava-se água de rosas no cimento usado para construir as mesquitas e acreditava-se até que o chão do paraíso emitisse o cheiro de almíscar e açafrão. O próprio Maomé foi comerciante de condimentos e fragrâncias e viajava em caravanas de camelos. Ele amava fragrâncias, especialmente as rosas, citando-as freqüentemente em seus ensinamentos: "Quem quer que sinta o meu cheiro, deixe-o sentir o cheiro das rosas".
Unindo o oriente ao ocidente
Embora não tenha sido a intenção, as cruzadas dos séculos 11, 12 e 13 mostraram à população européia as idéias árabes e estimularam a apreciação das fragrâncias orientais, apesar dos avisos do clero cristão de que elas estavam associadas ao demônio. Os guerreiros voltavam com presentes de óleos, águas de cheiro e perfumes sólidos. Logo a elite européia estava querendo água de rosas e os italianos não podiam viver sem colocar água de laranja em seus doces e confeitos.
Conforme o comércio de fragrância aumentava entre o oriente e ocidente, o mesmo acontecia com a troca de idéias. Para facilitar o comércio, os chineses adotaram o sistema indiano de contagem. Por volta do século 11, os árabes estavam navegando com navios carregados de condimentos da Índia para a China, com a bússola chinesa e o leme equilibrado na popa. Durante o século seguinte, a marinha chinesa cresceu de 3 para 50 mil marinheiros, para comandar embarcações maiores que levassem seis mil cestas de ervas e condimentos perfumados.
As classes mais altas da sociedade chinesa esbanjavam fragrâncias, principalmente da Dinastia T'ang no século 7 até a Dinastia Ming no século 17. Em tudo havia fragrância: banho, roupa, construções, tinta e papel. Paisagens em miniatura, nas quais havia uma montanha de onde saía uma fumaça perfumada, viraram febre.
Exploração e colonização
Marco Polo fez sua famosa jornada até a corte de Kublai Khan no final do século XIII para estabelecer relações comerciais diretas entre a Itália e a China. Os italianos poderiam, então, enganar os intermediários muçulmanos e seus 300% de lucro. O acordo foi bem sucedido e, durante os séculos 13 a 15, a Itália monopolizou o comércio oriental com a Europa. Para não ficar para trás, a Espanha mandou Cristóvão Colombo atravessar o oceano para procurar um caminho mais curto para a Índia.
Foram os portugueses que estabeleceram uma rota para a Índia que contornava Alexandria e Constantinopla. Em 1498, Vasco da Gama chegou à Índia, terra dos condimentos e ervas cheirosas. Foi levada uma quantidade imensa de especiarias para Lisboa.
No começo do século XVII, os holandeses construíram fortes na Índia, estabelecendo lá, à força, a Companhia Holandesa das Índias Orientais. Nas províncias que não conseguiam controlar, eles simplesmente arrancavam as árvores de noz moscada e cravo-da-Índia pela raiz, para que ninguém mais as pudesse ter, mas os franceses conseguiram roubar várias plantas bem debaixo do nariz dos holandeses. Elas eram plantadas nas Índias Francesas do Ocidente e na ilha de Bourbon (agora chamada Reunion).
A demanda por óleos essenciais e condimentos realmente começou a crescer com a invenção do incenso e dos perfumes sólidos. Aprenderemos sobre este desenvolvimento na próxima seção.
Estas orientações têm caráter apenas informativo. ELAS NÃO DEVEM SER CONSIDERADAS CONSELHOS MÉDICOS. Nem os editores do Consumer Guide (R), Publications International, Ltd., o autor ou a editora assumem a responsabilidade por quaisquer conseqüências de qualquer tratamento, procedimento, exercício, alteração de dieta, ação ou aplicação de medicamentos decorrentes da leitura ou do seguimento das instruções contidas neste artigo. A publicação dessas informações não constitui prática da medicina e não substitui o conselho de seu médico ou outro profissional da área da saúde. Antes de se submeter a qualquer tratamento, o leitor deve procurar o aconselhamento de seu médico ou outro profissional da saúde responsável.
Neste artigo
1.
2.
O comércio das fragrâncias
3.
4.
Para citar corretamente este artigo do HowStuffWorks por favor copie e cole o texto abaixo:
Kathi Keville. "HowStuffWorks - História da Aromaterapia". Publicado em 17 de abril de 2007 (atualizado em 21 de maio de 2008) http://saude.hsw.uol.com.br/historia-da-aromaterapia1.htm (27 de novembro de 2009)