Como funcionam as doenças cardíacas

Autor: 
Carl Bianco, M.D.
ilustração do coração

Doenças cardíacas são a principal causa de morte nos EUA e no Brasil também. São grandes a chances de que, em algum período de sua vida, você ou pessoas próximas sejam forçadas a tomar decisões relacionadas a essas doenças. Ter conhecimento sobre a anatomia e o funcionamento do coração, em particular de como a angina e o infarto funcionam, irá permitir que faça escolhas melhores para a sua saúde. Como as doenças cardíacas ocorrem repentinamente e necessitam de decisões rápidas, estar informado de antemão é de grande valia para você e sua família.

Neste artigo, discutiremos várias doenças cardíacas e como elas podem levar a um infarto ou mesmo a um derrame. Analisaremos também como os infartos são tratados e como estas doenças podem ser prevenidas.

Leitura adicional
Este artigo é precedido por outros dois que são de extrema importância para o entendimento sobre doenças cardíacas:

Ler estes dois artigos irá lhe fornecer o conhecimento básico necessário sobre a anatomia e o funcionamento do coração.

Doença arterial coronária (DAC), doença coronariana (DC), isquemia cardíaca e doença cardiovascular são nomes diferentes para a mesma enfermidade. A DC é causada pela aterosclerose, que nada mais é do que o acúmulo de gordura nas coronárias cardíacas formando placas de ateroma. Veja a figura abaixo:

artéria coronária com ateroesclerose

Artérias coronárias fornecem sangue ao músculo do coração. Quando um bloqueio acontece em uma das artérias, o fluxo de sangue aos músculos cardíacos diminui. Isto se torna ainda mais evidente durante algum tipo de esforço, pois nesta situação o coração está trabalhando mais intensamente e necessita de uma quantidade maior de sangue oxigenado. Na presença de um bloqueio há falta de oxigenação e os músculos cardíacos sofrem danos. A dor no peito resultante é chamada de angina ou angina pectoris. Quando não recebe oxigênio suficiente, o músculo cardíaco fica isquêmico. Se as células morrerem, ocorre um infarto. O infarto nada mais é do que a morte das células musculares cardíacas (miocárdio) sendo chamado de infarto de miocárdio (IM). A causa da DC, angina e o infarto do miocárdio é a aterosclerose.

Mulheres x homens

Levantamento da Secretaria da Saúde, com dados de 2008 dos hospitais públicos, mostra que as mulheres que sofrem enfarte morrem mais do que os homens em todas as faixas etárias.

Leia mais em VEJA.com

Aterosclerose - é o termo mais comum para o endurecimento das artérias. Na arterosclerose há acúmulo de material gorduroso (chamado de placas de ateroma) nas camadas mais internas da artérias. Dependendo do local que estes bloqueios acontecem, podem causar resultados bastante variados.

  • Se o bloqueio estiver em uma artéria coronária, causa dores no peito (angina).
  • Se o bloqueio for completo, pode levar a um infarto de miocárdio ou IM.
  • Se o bloqueio acontecer em uma das artérias próximas ao cérebro, um derrame pode acontecer.
  • Se o bloqueio acontecer em uma artéria da perna, causa a doença vascular periférica (DVP) que ocasiona dores ao andar, chamadas de claudicação intermitente.

Aterosclerose leva muitos anos para se desenvolver e, por isso, pode passar despercebida. Em alguns casos, sintomas como a angina podem indicar a doença; no entanto, ela pode se tornar evidente de uma maneira mais repentina e grave, na forma de um infarto do miocárdio.

Vamos ver alguns fatores de risco da aterosclerose. Alguns destes são fatores que podem ser controlados. Sendo pró-ativo você pode diminuir os seus riscos.

Você está sob risco?
Existem muitos fatores de risco que aumentam as chances do desenvolvimento da aterosclerose e da DC. Como por exemplo:

  • hipertensão (pressão arterial alta)
  • diabetes
  • colesterol elevado
  • fumar
  • estilo de vida sedentário
  • estresse
  • obesidade
  • sexo masculino
  • histórico de doenças cardíacas na família
  • idade avançada

Obviamente, alguns destes fatores de risco podem ser controlados ou alterados (sozinho ou com a ajuda de um médico) e outros não. Muitos destes fatores podem interagir entre eles; por exemplo, a mudança de hábitos de vida como a prática de atividade física, comer menos sal pode baixar os níveis de pressão arterial. Já perder peso pode ajudar no:

  • controle de açúcar no sangue em casos de diabetes
  • controle da pressão arterial
  • controle do colesterol

Idade, gênero e histórico familiar
Você não pode modificar sua idade, seu histórico familiar ou seu gênero. No entanto, estes fatores de risco podem servir como um impulso para que cuide melhor dos fatores modificáveis. Como o risco de doenças cardíacas aumenta com a idade, é ainda mais importante prestar atenção em seu peso, na quantidade de açúcar no sangue, nos níveis de colesterol, na pressão sanguínea e na prática de atividade física. Homens, em geral, possuem riscos maiores para a doença coronariana. O risco se torna praticamente igual quando as mulheres chegam à menopausa, pois perdem o efeito protetor do estrogênio. DC, também, é mais comum em pessoas com parentes próximos (mãe, pai, irmão) que tenham desenvolvido a doença em idade não muito avançada.

Hipertensão
Hipertensão (pressão arterial alta), além de ser um fator de risco para DC, também pode levar a derrames, insuficiência renal  e aneurismas. Por fazer o coração trabalhar mais, pode causar insuficiência congestiva cardíaca. A pressão arterial possui dois componentes. Na leitura, o valor mais elevado corresponde à  pressão sistólica. Uma pressão sistólica abaixo de 140 é considerada normal. O valor mais baixo é de pressão diastólica. Uma pressão diastólica abaixo de 90 é considerada normal. Pressões que excedem apenas um pouco estas marcas são chamadas de hipertensão leve que, em muitos casos, pode ser controlada com perda de peso, parar de fumar cigarro e diminuição da ingestão de sal. No entanto, pode ser necessário usar medicamentos. Aqui estão seis classes de remédios para tratar a hipertensão arterial:

  • diuréticos - estes medicamentos (como o hidroclorotiazida e a clortalidona) excretam a água e o sal em excesso para abaixar a pressão arterial;
  • drogas anti-adrenérgicas - normalmente chamadas de alfa ou de beta bloqueadores, incluem medicamentos como o Prazosin, Terazosin, Doxazosin, Propranolol, Metoprolol e Atenolol. Eles bloqueiam uma parte do sistema nervoso que aumenta a pressão sanguínea;
  • vasodilatadores - medicamentos como Hidralazin e o Minoxidil relaxam os vasos para abaixar a pressão arterial;
  • inibidores da enzima de conversão - estes medicamentos são vasodilatadores, prevenindo a produção da angiotensina, que é um vasoconstritor. Os mais prescritos são Captopril, Enalapril e Lisinopril;
  • antagonistas do receptor do angiotensinogênio - medicamentos como o Losartan e o Valsartan são similares aos inibidores ACE, com menos efeitos colaterais, porém mais caros;
  • bloqueadores dos canais de cálcio - como eles bloqueiam o fluxo de cálcio necessário para a constrição dos vasos sanguíneos, medicamentos como o Diltiazem e o Amlodipina também agem como vasodilatadores.

Fumo
Fumar causa tanto DC como diversas outras doenças, como por exemplo, as DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) que incluem enfisema e bronquite crônica. Pode causar também câncer de pulmão, derrames e outras enfermidades. A nicotina causa o bloqueio das artérias coronárias porque facilita a trombose sobre a placa de ateroma. 

Existem diversas maneiras de parar de fumar. Normalmente, a melhor opção é parar por você mesmo ou com a ajuda de um grupo de apoio, acompanhado pelo uso de chicletes ou adesivos de nicotina.

Colesterol elevado
Existe uma relação entre colesterol elevado e DC. O colesterol é transportado no sangue pelas lipoproteínas. Duas destas são, as lipoproteínas de baixa densidade (LDL) e as lipoproteínas de alta densidade (HDL). Um nível elevado de LDL (o colesterol ruim) é associado ao alto risco de DC. Já um nível alto de HDL (o colesterol bom) é associado ao baixo risco da doença. Os níveis de colesterol podem baixar por uma dieta com pouca ingestão de carnes, ovos e laticínios. Se esta dieta não reduzir os níveis de colesterol, seu médico pode prescrever medicamentos. Existem quatro classes de remédios que ajudam neste caso:

  • quelantes de sais biliares, como o colestiramina ou o colestipol, se ligam aos sais da bile e evitam sua reabsorção;
  • ácido nicotínico (niacina) diminui a produção de LDL;
  • inibidores da HMG-CoA redutase - conhecemos como estatinas, diminuem a síntese do colesterol. Estes medicamentos incluem o Lovastatin, Pravastatin, Simvastatin e Atorvastatin e são os mais utilizados; 
  • fibratos como o Gemfibrozil aumentam os níveis de HDL e diminuem os de triglicerídeos. Fibratos e as estatinas não podem ser usados simultaneamente por risco de necrose muscular.

Obesidade
Obesidade é um índice de massa corpórea IMC (IMC = (peso/altura2) ) acima de 30kg/m2. Acima de 25kg/m2 já diagnostica sobrepeso. Um IMC entre 20 e 25 é considerado bom, acima de 25 já existe um sobrepeso, se passar de 30 é obesidade. Para calcular o seu IMC visite este site (em inglês). A obesidade aumenta os riscos de uma doença cardíaca devido à elevação de outros fatores de risco como a pressão arterial, diabetes e a diminuição do HDL (o colesterol bom).

Diabetes Mellitus
A diabetes mellitus aumenta o risco de doenças cardíacas, pois eleva os níveis de colesterol e aumenta a ateroesclerose. Para piorar, grande parte das pessoas com diabetes está acima do peso e, com isso, agravam ainda mais a sua condição e os riscos provenientes dela. Existem dois tipos de diabetes, o tipo I (dependente de insulina) e o tipo II (não dependente de insulina). No primeiro tipo, nenhuma ou muito pouca insulina é produzida pelo pâncreas, por isso esta condição é tratada com insulina. No segundo, a insulina ainda é produzida, mas há uma resistência periférica aumentada à ação da insulina desencadeada e agravada pela obesidade. Esta variação da doença pode ser tratada com perda de peso, uma dieta modificada e exercícios. Se isto não for suficiente, medicamentos chamados hipoglicêmiantes orais são utilizados. Eles aumentam a secreção de insulina no pâncreas, mas nem sempre são suficientes e a insulina pode ser necessária.

Estresse
Altos níveis de estresse e ter o que se chama de "personalidade tipo A" podem ser fatores de risco para doenças cardíacas. O estresse provoca liberação adrenérgica forçando seu coração a trabalhar mais e, com isso, aumentar sua pressão arterial e sua pulsação. Aprender a se acalmar, a diminuir o ritmo e a relaxar podem ajudar a diminuir os efeitos do estresse. Também é benéfico evitar a cafeína e a nicotina, além de incorporar algum tipo de exercício em sua rotina diária.

Estilo de vida sedentário
Ter um estilo de vida sedentário leva ao sobrepeso, que pode resultar em diabetes e na elevação da pressão arterial, ambos fatores de risco para as DC. Exercícios também podem abaixar os níveis de LDL e aumentar os de HDL, além de fortalecer o coração e aumentar não só sua eficiência, como a do uso de oxigênio pelo corpo. Pessoas que se exercitam, normalmente, possuem um pulso mais lento e, assim, forçam menos os seus corações.