Como funciona a doença de Chagas

Autor: 
Isabela Benseñor,Paulo Lotufo

Recentemente, uma doença da qual pouco se falava voltou às manchetes dos jornais: a doença de Chagas. Isso ocorreu por causa de formas pouco usuais de contaminação (como a alimentar que ocorreu no Brasil) e também por causa do aparecimento da doença nos Estados Unidos (três casos) e Canadá (dois) devido a transfusão sangüínea.

Desde o início de 2007, o teste para Chagas é obrigatório nos bancos de sangue americanos. Essas formas de contágio, no entanto são raras e, podem ser facilmente controladas. No entanto, ainda há um longo caminho a se percorrer em vários países latino-americanos para reduzir a carga dessa doença.

Recentemente, Carlos Franco-Paredes e outros pesquisadores mostraram preocupação com a doença de Chagas, um dos fatores impeditivos para alcançar as Metas do Milênio proposta pela Organização das Nações Unidas. Os autores mostraram que o impacto da doença de Chagas é de 5 a 10 vezes maior do que o da malária. Apesar do sucesso da operação no cone sul, que eliminou a doença no Chile e Uruguai e, restringiu muito na Argentina e Brasil, os demais países da América do Sul, como Bolívia, Paraguai e Peru e, os da América Central estão longe do controle atingido no cone sul do continente.

O nome da doença é uma homenagem a Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas (Oliveiras, Minas Gerais, 1979 - Rio de Janeiro, 1934) médico e pesquisador que descobriu a doença e como ela é transmitida ao realizar uma campanha para controle da malária no norte de Minas Gerais em operários que trabalhavam na construção da estrada de ferro Central do Brasil.


Imagem cedida pela Scientific Electronic Library Online
Crédito: Scielo Brasil/ Divulgação
Carlos Chagas

Do ponto de vista da história da medicina, o feito de Carlos Chagas é praticamente único porque ele conseguiu descrever a epidemiologia da doença, a etiopatogenia, o quadro clínico e o prognóstico. Nada mais merecido que um dos poucos epônimos para doenças ainda existente seja em homenagem a esse ilustre brasileiro. Juntamente com Oswaldo Cruz, Vital Brazil, Rocha Lima, Adolpho Lutz, Clemente Ferreira e Emílio Ribas, Carlos Chagas pôs a saúde pública e a microbiologia em posição de vanguarda no início do século XX. José Carlos Pinto Dias, o maior pesquisador brasileiro da doença, conseguiu evidências históricas que o Prêmio Nobel de Medicina de 1921 poderia ter sido concedido a Chagas, mas a Academia Sueca não recebeu “boas recomendações" de brasileiros, vários deles não médicos!

A doença é causada por um protozoário, o Trypanosoma cruzi transmitido por um inseto triatomídeo, freqüentemente chamado de “barbeiro” ou “chupança”. A doença de Chagas no Brasil levou a um grande prejuízo ecônomico pelas mortes precoces de pessoas na fase produtiva e também pelo absenteísmo dos muitos brasileiros com doença de Chagas, que representavam uma perda mínima de mais de US$ 5.000.000 por ano na década de 90. Embora a doença de Chagas possa ser considerada uma doença da área rural, a migração para as regiões urbanas fez com que muitos indivíduos com a doença atingissem as grandes metrópoles.

Nos últimos dez anos, uma série de iniciativas multinacionais levou à redução do impacto da doença de Chagas no Brasil, embora ela ainda seja muito freqüente em outros países da América do Sul, principalmente na Bolívia. Muito do sucesso do controle da doença no Brasil se deve a iniciativas amplas para controlar o inseto transmissor da doença e de controle dos bancos de sangue.