Diagnóstico de doença cardíaca

Autor: 
Carl Bianco, M.D.

A medicina moderna possui várias ferramentas disponíveis para ajudar a determinar o que está acontecendo dentro do seu coração. Elas incluem:

  • histórico e exames físicos
  • eletrocardiograma
  • raios-x do tórax
  • exames de sangue
  • testes de esforço
  • ecocardiograma
  • cateterismo cardíaco

Cada uma destas técnicas será descrita nas próximas seções.

Histórico e exame físico
Mesmo nesta era de tecnologia na qual o médico dispõe de uma ampla gama de testes, a principal fonte de informações sobre seu coração provém do histórico e do exame físico.

Não existem sintomas que ocorrem somente nas doenças cardíacas. Entretanto, um dos sintomas mais comuns da doença cardíaca é a dor no peito. A dor no peito ocorre quando uma parte do músculo cardíaco (miocárdio) não está recebendo sangue suficiente (geralmente devido ao entupimento em uma das artérias coronárias). A dor no peito causada por uma doença cardíaca geralmente dá a sensação de aperto ou pressão. Normalmente localiza-se na região do tórax, porém também pode estar deslocada para o lado. Em geral ocorre devido a um esforço e é aliviada pelo repouso.

A dor no peito também pode originar-se de outras áreas próximas ao coração como o pericárdio (o envoltório do coração), aorta, pulmão, pleura (membrana que envolve o pulmão), músculos e ossos do peito ou do trato gastrintestinal (esôfago ou estômago). Alguém também pode ter uma doença cardíaca e não sentir qualquer tipo de dor no peito.

Outro sintoma que pode ocorrer na doença cardíaca é a dificuldade para respirar. A falta de ar ocorre em repouso, sob esforço ou ao deitar. As palpitações são a sensação de que seu coração está batendo muito rápido ou muito devagar, falhando batimentos ou batendo com irregularidade. Poderá ocorrer a perda de consciência (síncope) devido à doença cardíaca se o coração, temporariamente, não estiver bombeando sangue suficiente. Náusea e vômito também podem ser sintomas de infarto. Algumas vezes, a transpiração excessiva (diaforese) pode acompanhar a doença cardíaca. É claro que existem outras causas de sudorese excessiva.

Durante o exame físico, o médico ausculta o coração com um estetoscópio. O estetoscópio é colocado em algumas áreas predeterminadas onde cada válvula cardíaca é auscultada com mais facilidade. Se for ouvido um sopro no local da válvula, existe uma boa chance de ser essa a válvula que não está funcionando bem. Além disso, auscultar os pulmões com um estetoscópio pode revelar a presença de líquido, que pode ser conseqüência de uma doença cardíaca.

Eletrocardiograma
Um eletrocardiograma (ECG) registra a atividade elétrica do coração a partir da superfície do peito por meio de eletrodos colocados em cada braço e perna e seis colocados no peito. Estes eletrodos são conectados à máquina de ECG por meio de cabos. São produzidas 12 ondas diferentes e isto chama-se ECG de doze derivações. Cada onda fornece uma visão do coração de um ângulo diferente. As doze derivações de um ECG são chamados DI, DII, DIII, aVR, aVL, aVF, e V1, V2, V3, V4, V5 e V6. Dependendo de qual derivação do ECG está alterada, o médico pode, durante um infarto, saber qual parte do coração está lesada. Então, baseado em seus conhecimentos de anatomia, ele pode determinar qual artéria está entupida.

O ECG fornece ao médico informações sobre:

  1. ritmo cardíaco;
  2. adequação do suprimento de sangue ao coração;
  3. presença de infarto; 
  4. aumento do tamanho do coração;
  5. inflamação em volta do coração (pericardite);
  6. efeitos de medicamentos e eletrólitos no coração.

Este é um exemplo de um ECG normal de 12 condutores:

Raios-X do tórax
O raio-X do tórax é uma ferramenta útil na avaliação de doenças cardíacas. Ele mostra o tamanho e formato do coração, que pode estar aumentado no caso de uma insuficiência cardíaca congestiva. O aumento do coração (cardiomegalia) também pode estar presente nas doenças das válvulas cardíacas e na doença cardíaca congênita. O aumento do contorno do coração também pode ser causado pelo excesso de líquido no pericárdio (envoltório do coração). Caso haja a presença de muito líquido, ele pode comprimir o coração. Normalmente, a parte mais importante dos raios-X do tórax na avaliação da doença cardíaca é o estado dos pulmões. O acúmulo de líquido nos pulmões geralmente é causado pela insuficiência cardíaca. O contorno dos vasos próximos ao coração também pode ser visto no raios-X de tórax e pode ajudar o médico no diagnóstico de um aneurisma da aorta (dilatação na parede da aorta) ou da dissecção da aorta (quando o sangue vai para dentro da parede da aorta, dividindo-a em duas). Este é um exemplo de raios-X de tórax normal:

Exames de sangue

O infarto ocorre quando uma artéria coronária entope e o músculo cardíaco deixa de ser irrigado com sangue, podendo morrer. Quando o músculo morre, ele libera substâncias presentes nas células musculares. Elas podem ser medidas e, caso estejam presentes, são evidência de infarto. Cada substância pode ser medida individualmente e persiste no sangue por períodos diferentes. São elas: CPK, CPK-MB, troponina e mioglobina. A tabela abaixo mostra o comportamento de cada uma delas no sangue:


Exame laboratorial Começa a aumentar Pico Duração Encontrado em
CPK 4-8 horas
-
48-72 horas coração, cérebro, músculo-esquelético
CPK-MB 3-4 horas 12-24 horas 48 horas coração
Mioglobina 1-2 horas 4-6 horas 24 horas coração, músculo-esquelético
Troponina 3-6 horas 12-24 horas 1 semana coração

Teste de esforço
O teste de esforço é um procedimento comumente utilizado para avaliar a doença coronariana. Os testes de esforço são úteis pois o exercício pode revelar anormalidades que não podem ser detectadas em um ECG do coração em repouso. O ECG, a pressão arterial e os sintomas da pessoa são monitorados primeiro em repouso, enquanto anda em uma esteira ou pedala em uma bicicleta, e então após o exercício. O nível de esforço é aumentado gradualmente até que seja atingida uma taxa de batimentos cardíacos objetiva (85% da taxa máxima de batimentos cardíacos). Caso ocorram mudanças bruscas no ECG, dor no peito, falta de fôlego severa, alterações na pressão arterial ou arritmias cardíacas, então o teste pode precisar ser interrompido.

Quando ocorrem certas alterações no ECG, o teste é considerado positivo. Se uma pessoa não pode se exercitar, são fornecidos medicamentos que causam esforço ao coração sem exercícios. Poderão ser obtidas ainda mais informações se forem injetados no paciente certos isótopos radioativos (tálio-201 ou tecnécio 99m sestamibi) durante o teste de esforço. Estes produtos químicos podem ser detectados por uma câmara especial logo após o exercício e quatro horas após. Eles podem ajudar a detectar áreas em que a vazão de sangue diminuiu e também áreas onde ocorreram infartos. A eficiência da contração cardíaca pode ser determinada medindo-se a fração de ejeção que é a porcentagem de sangue bombeado para fora do coração em cada contração.

Ecocardiograma

O ecocardiograma é um procedimento indolor que utiliza um feixe de ultrassom para visualizar o coração em movimento. O procedimento é similar ao utilizado para monitorar um feto. Um transdutor ultrassônico, que parece com um microfone, transmite e recebe as ondas de ultrassom. Ele é colocado sobre o peito e movimentado para visualizar as várias estruturas do coração. As ondas de ultrassom são refletidas somente quando atingem a borda de duas estruturas com densidades diferentes. As ondas refletidas produzem uma imagem em movimento das bordas das estruturas do coração que são exibidas na tela e gravadas.

Os tipos de ecocardiograma são modo-M, 2-D e doppler. O modo-M fornece a visão unidimensional de uma pequena seção do coração à medida que ele se move. O ecocardiograma 2-D fornece o movimento em uma fatia bidimensional do coração. O ultrassom doppler é utilizado para avaliar a velocidade e turbulência da vazão de sangue no coração.

Os ecocardiogramas podem avaliar:

  1. a presença anormal de fluídos no envoltório do coração (pericárdio);
  2. o tamanho da câmara, espessura da parede do músculo cardíaco e se está funcionando bem;
  3. o funcionamento das válvulas cardíacas - se estão obstruindo a vazão de sangue ou se não estão fechando direito;
  4. quaisquer conexões anormais entre as câmaras e vasos que possam existir em uma doença cardíaca congênita;
  5. anormalidades no movimento da parede que ocorrem quando o músculo cardíaco não está recebendo sangue suficiente;
  6. a presença de aneurismas, coágulos, tumores, vegetações (crescimento de bactérias) nas válvulas.

Cateterismo cardíaco
Este procedimento é o melhor exame para a avaliação do coração e seu funcionamento. Durante o cateterismo cardíaco, é feito um filme para mostrar a anatomia das artérias coronárias, câmaras do coração, vasos principais, válvulas e alterações congênitas. Ele também é utilizado para avaliar a adequação das contrações do coração, as pressões em diversas áreas do coração e o rendimento cardíaco. Pode ser utilizado também para tratar artérias coronárias obstruídas soprando um pequeno balão no local da obstrução para criar uma abertura maior (chamada de angioplastia).

Após sedar o paciente, o cardiologista coloca o cateter (pequeno tubo) em uma artéria na parte superior da perna ou do braço. O cateter é movimentado até atingir o coração. É injetado um corante contrastado no cateter e as imagens são gravadas. As imagens são tomadas em ângulos diferentes para ver se existe alguma obstrução nas artérias coronárias. Este procedimento é invasivo e possui raras complicações como infartos, arritmias, reações alérgicas, perfuração (perfuração de um vaso sanguíneo ou câmara do coração) e até mesmo a morte.

Exemplo de cateterismo cardíaco no qual o cateter é colocado na artéria femoral, e então movido pela aorta até chegar ao coração.

Sobre o autor
Carl Bianco, M.D., é médico do setor de emergências exercendo a profissão no Dorchester General Hospital em Cambridge, MD, localizado na costa leste de Maryland (EUA). O Dr. Bianco estudou medicina na Georgetown University School of Medicine e recebeu sua graduação da Georgetown University estudando enfermagem e pré-med. Ele terminou sua residência médica em medicina de emergência no Akron City Hospital em Akron, Ohio.