A integração entre os vários níveis do sistema de saúde

Autor: 
Isabela Benseñor

O atendimento aos pacientes fora das possibilidades de cura exige vários níveis de atenção. Não existe "alta" nesse tipo de atendimento e sim, um encaminhamento do paciente para o local mais adequado para o seu tratamento em um determinado momento. No filme “O Escafandro e a Borboleta” há uma descrição dos cuidados a um paciente sem possibilidade de melhora, mas que ainda sente que tem muitas coisas para fazer. O filme foi feito a partir de um livro contado pelo próprio paciente que teve um derrame (acidente vascular cerebral) que paralisou todo o seu corpo menos o olho direito. No filme, ele fica internado em uma instituição especializada sendo tratado por uma equipe multiprofissional.

Um paciente em cuidados paliativos apresenta uma curva descendente com um comprometimento cada vez maior da sua independência, cada vez mais dependendo dos outros e necessitando de mais cuidados. Esse não é um processo fácil para o paciente nem para a família e muito menos para o  cuidador.

O atendimento ao paciente terminal pode ser feito em ambulatórios especializados. Em alguns casos surge a necessidade de se fazer alguns procedimentos médicos, o que pode ser feito em hospitais dia. Nesses locais, o paciente pode vir para receber uma transfusão ou realizar um procedimento que facilite a alimentação. Por exemplo, em um paciente com câncer de esôfago irressecável, fazer uma gastrostomia (fazer uma abertura no estômago do paciente de modo que ele possa ser alimentado por um tubo sem ter que passar pelo esôfago) pode fazer com quer ele continue se alimentando.

Em alguns casos, em vez de ir ao hospital, a assistência médica vai à casa do paciente. É o que chamamos de atendimento domiciliar. Há vários hospitais públicos com serviço de atendimento domiciliar. Isso facilita a vida do paciente e sua família porque não é fácil muitas vezes transportar esse paciente de um local para outro. Alguns pacientes vão precisar de cuidados em enfermaria ou mesmo em Unidade de Terapia Intensiva.

Cuidados ambulatoriais

Um ambulatório de cuidados paliativos funciona recebendo os pacientes encaminhados de outros setores ou de especialidades clínicas e cirúrgicas por meio de um pedido de consulta ou de um encaminhamento. É conveniente sempre ter critérios de inclusão e exclusão adequados para cada instituição. É importante que o serviço de saúde que encaminha o paciente trabalhe de forma integrada com o ambulatório de cuidados paliativos.

Inicialmente, os pacientes podem se locomover ao ambulatório de cuidados paliativos. Posteriomente, com o avançar da doença, o paciente precisará ser transportado para o ambulatório, o que nem sempre é fácil para a família. Nos casos de difícil transporte, se o ambulatório de cuidados paliativos tiver um braço de atendimento domiciliar, passa a ser a melhor opção. Muitas vezes é extremamente trabalhoso para a família transportar o paciente e nem sempre ele é transportado em condições ideais de conforto. Daí a necessidade do atendimento domiciliar acoplado.

Os ambulatórios de cuidados paliativos podem atender somente adultos, adultos e crianças ou somente crianças. Para poder usar os serviços do ambulatório de cuidados paliativos, o paciente precisa ser portador de uma doença ativa e progressiva fora das possibilidades de cura. Alguns ambulatórios podem se restringir a atender um tipo de doença - por exemplo, somente atender pacientes com câncer fora das possibilidades de cura. Outros ambulatórios podem atender outros tipos de pacientes como, por exemplo, casos terminais de insuficiência cardíaca congestiva ou doença pulmonar obstrutiva crônica ou pacientes com doenças neurológicas.

Carinho e conforto espiritual são importantes cuidados paliativos
©iStockphoto.com/Loretta Hostettle
Carinho e conforto espiritual são
importantes cuidados paliativos

De uma maneira geral, são encaminhados para ambulatórios de cuidados paliativos os pacientes que têm em torno de seis meses de sobrevida. A Organização Mundial da Saúde recomenda que o paciente seja encaminhado a esse tipo de ambulatório assim que o diagnóstico for realizado. O tempo de seis meses é um número aproximado já que ninguém consegue predizer exatamente o tempo de sobrevida. Alguns sistemas de saúde autorizam o uso de seis meses do ambulatório de cuidados paliativos. Mas essa é uma realidade principalmente americana. No Brasil, o paciente permanecerá sob cuidados o tempo que for necessário, que, em média, acaba girando em torno de seis meses. É importante que o ambulatório de cuidados paliativos seja flexível de modo a poder atender bem os seus pacientes e sempre tratá-los de forma individualizada, já que o que se adapta a um determinado paciente nem sempre se adapta aos demais.

Equipe de cuidados

Na área dos cuidados paliativos é essencial trabalhar com uma equipe multiprofissional que possa atender a todas as necessidades do paciente terminal. A interação entre os vários profissionais da área da saúde com o paciente e sua família e entre si é fundamental para a resolução dos problemas. A expertise de cada membro da equipe será aproveitada por todos. Durante os cuidados a um determinado paciente, os membros da família serão parte da equipe de cuidados. Fazem parte da equipe de cuidados do paciente terminal os seguintes profissionais: médico, enfermeira, assistente social, psicóloga, farmacêutico, capelão (religioso), fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, nutricionista e voluntários. Deve-se ter o cuidado de não trabalhar com uma equipe excessivamente grande que possa atrapalhar a comunicação entre seus membros.