Como o câncer afeta os hormônios

A descoberta de um caso de câncer na família muitas vezes chega de forma devastadora e a tensão acaba varrendo alguns assuntos para debaixo do tapete. A vida sexual do doente é um desses temas frequentemente relegado a segundo plano, embora possa ser muito importante especialmente para a autoestima da pessoa abalada por uma condição que coloca em risco a sua vida.

Em maior ou menor grau, dependendo do tipo do câncer e da intensidade do tratamento, os hormônios tanto do homem quanto da mulher afetados pela doença sofrem um desequilíbrio no período de combate a essa condição e a queda na libido é um dos resultados mais frequentes da situação.


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Hormônios são essenciais para regular as funções do organismo

Os hormônios são substâncias produzidas naturalmente pelas glândulas do nosso organismo e transportadas através do sangue. Eles funcionam como mensageiros emitindo comandos para diversas partes do corpo e regulando seu funcionamento. Cada um deles tem funções específicas intervindo desde o crescimento até nas atividades dos órgãos.

Com a manifestação do câncer, o desequilíbrio das funções hormonais ocorre de duas formas. Em casos particulares, algumas células cancerígenas produzem hormônios que causam sintomas indesejáveis no organismo. Todavia, na maioria das vezes, a ruptura do ambiente controlado de forma natural é feito pela medicação ingerida para combater a doença ou pela remoção de órgãos, que altera os níveis hormonais. Essas modificações podem ser permanentes ou temporárias.

Apesar de todos os tratamentos serem passíveis de afetar os hormônios sexuais, há alguns tipos de câncer que são mais susceptíveis de fazer essa alteração de forma significativa. Especialmente os direcionados para os cânceres localizados na mama e na próstata.

Três substâncias atuam na manutenção do desejo sexual

São três os hormônios sexuais que atuam de forma decisiva na libido. O estrogênio, a progesterona e a testosterona.

O estrogênio é um hormônio feminino que é produzido, em sua maior parte, pelos ovários, embora as glândulas adenais (localizadas acima dos rins) sejam capazes de fazê-lo, ainda que em pequena quantidade. A gordura corporal também consegue produzir algum estrogênio.
Ele é o responsável, durante a puberdade, pelo desenvolvimento sexual das meninas, incluindo o crescimento das mamas, ajuda a controlar o ciclo menstrual e a liberação dos ovos no período fértil.

Homens também produzem estrogênio, mas em muito menor quantidade. Ele é feito nos testículos, em sua maior parte, e também nas glândulas supra-renais. Serve para ajudar a melhorar a qualidade do esperma (amadurecer) e aumentar o desejo sexual.

Testosterona é essencial para crescimento muscular

A progesterona é outro hormônio essencialmente feminino e também produzido pelos ovários. Durante o período da gravidez, a placenta é capaz de criar essa substância essencial para o controle do ciclo menstrual, importante na manutenção da gravidez e no período da amamentação.

Já a testosterona é um hormônio masculino produzido em sua maior parte pelos testículos. As glândulas supra-renais criam uma substância similar que o corpo se encarrega de transformar em testosterona. Ela é necessária para o corpo produzir esperma, ajuda a manter massa muscular e contribui para o impulso sexual. Tem papel fundamental no desenvolvimento sexual dos meninos durante a puberdade como, por exemplo, no crescimento muscular e dos pelos faciais.

Em mulheres, a testosterona, em quantidade bem menor, é produzida pelas glândulas supra-renais e ovários. Ajuda na manutenção da massa muscular e contribui para a libido.


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Sintomas vão muito além da perda de desejo sexual

Quando os tratamentos para o câncer atingem esses órgãos produtores dos hormônios, eles acabam influenciando os níveis de hormônios sexuais e provocando o aparecimento de sintomas que, naturalmente, variam de indivíduo para indivíduo. Podem ser leves ou mais graves necessitando, inclusive, de tratamento.

Entre esses sintomas, para homens e mulheres estão:

* Suores e vermelhidão
* Problemas de memória e de concentração
* Diminuição ou perda de interesse em sexo (perda de libido)
*Aalterações de humor
* Cansaço
*Dificuldade em dormir
*Dores e dores
*Alterações de peso
*Perda óssea
* Problemas de coração, devido ao aumento dos níveis de colesterol

No caso específico das mulheres:
*Secura vaginal
 *Problemas urinários

Homens também podem sofrer:
*Problemas de ereção (impotência)
* Inchaço da mama e sensibilidade na região
*Fraqueza muscular

Escolha de tratamento define problema hormonal

São essas as causas principais que podem gerar os problemas hormonais.

Cirurgia de remoção dos ovários

Mulheres que já estão na menopausa não terão sintomas, uma vez que passaram pelo processo natural da paralisação da produção hormonal e o corpo se adaptou a isso. Porém, aquelas que estão no período pré-menopausa e precisam retirar os ovários por causa de câncer na região, terão uma menopausa brusca e muito provavelmente apresentarão sintomas, entre eles a perda de libido.

Operação para retirada dos testículos

O mesmo se aplica aos homens que precisam remover os testículos por causa de câncer no órgão. Quando a retirada é de apenas um testículo, o que é mais comum, isso não afeta tanto os níveis de testoterona, pois o remanescente é capaz de produzir o hormônio suficiente. Porém, quando há necessidade da remoção de ambos, o que é raro, é preciso fazer reposição hormonal para previnir os sintomas.

Câncer de próstata

Quando o caso é câncer de próstata, há necessidade de cessar a produção de testosterona para diminuir ou parar o crescimento das células cancerígenas. É uma opção a ter que realizar a cirurgia de remoção dos testículos, mas pode causar alguns dos sintomas descritos anteriormente.

Quimioterapia

Com a descoberta de células cancerígenas, sendo ou não realizada uma cirurgia para a remoção de algum órgão ou parte de tecido atingido, o uso de drogas anti-câncer (citotóxicos) para destruí-las ou retardar seu crescimento é chamado de quimioterapia. É um tratamento padrão e recomendado para praticamente todos os casos.

Em mulheres que não passaram pela menopausa, a quimioterapia pode fazer com que os ovários parem de funcionar normalmente, o que afeta imediatamente a produção de hormônios.

Sobre homens, há menos informação sobre como esta forma de tratamento afeta os níveis de testosterona. Existe alguma evidência da redução da produção do hormônio durante as aplicações da droga, o que causa a queda do desejo sexual e cansaço. Isso levou a uma menor capacidade de conseguir e manter uma ereção.

Radioterapia para a região pélvica

É uma opção de tratamento considerada mais leve (se comparada à quimioterapia) para o combate ao câncer, mas pode afetar os níveis dos hormônios sexuais se for direcionada para a região pélvica.

A radioterapia consiste no uso de raios-X para destruir as células cancerígenas. A aplicação é feita na região da bacia, entre os ossos da anca, região que abrange os ovários ou testículos, bem como o útero, bexiga e próstata.

Terapia hormonal

Para tentar diminuir o crescimento das células cancerígenas, especialmente quando é detectado um problema na próstata, na mama ou no útero, pode-se optar por terapia hormonal. Independente da terapia escolhida, ela pode causar sintomas.