Como funciona o câncer

Autor: 
Dr. Jerry Gordon
câncer

Um diagnóstico de câncer pode ser devastador. Existem bons motivos para ter medo: o câncer é a segunda maior causa de morte nos Estados Unidos, seguido por doenças do coração, e matará mais que meio milhão de pessoas neste ano. No Brasil, o câncer também é a segunda causa de morte, logo atrás das doenças cardiovasculares.

Várias formas de câncer podem ser evitadas - e se a detecção for precoce um grande número de pessoas pode ser curada. Neste artigo, veremos as várias faces do câncer para que seja possível entender a doença e seu tratamento e também para mostrar os passos a seguir para limitar a exposição a fatores de risco.

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O que nós pensamos como "câncer" é, na verdade, um grupo de mais de cem doenças separadas, todas caracterizadas por um crescimento anormal e irregular das células. Esse crescimento destrói o tecido corporal ao redor e pode se espalhar para outras partes do corpo em um processo que é conhecido como metástase. Provavelmente você já ouviu falar sobre todos os diferentes tipos de câncer:

  • câncer de pele (carcinoma das células escamosas e carcinoma das células basais sendo os mais comuns)
  • câncer de pulmão
  • câncer no cérebro
  • câncer de mama
  • câncer de próstata
  • câncer de cólon
  • câncer de ovário
  • leucemia
  • linfoma

Existem também outros tipos.

O câncer pode desenvolver em qualquer lugar do corpo e em qualquer idade. Diferente das doenças infecciosas como a AIDS, a gripe ou a tuberculose, o câncer não é contagioso - ele é geralmente causado por um dano genético que ocorre dentro de uma célula individual. As células afetadas pelo câncer são chamadas de células malignas. As células malignas são diferentes das células normais no corpo, pois se dividem (na maioria dos casos) muito mais rapidamente do que deveriam. Isto é importante saber porque vários medicamentos utilizados para combater o câncer (antineoplásticos ou medicamentos anticâncer) atacam as células malignas durante a fase ativa da divisão celular.

Você pode conhecer alguém que teve câncer e o cabelo dele caiu durante o tratamento. Isso aconteceu porque os medicamentos anticâncer afetaram as células dos folículos normais do cabelo bem como as células malignas de rápida divisão.

Câncer e tumores
É importante observar que nem todos os tumores são cancerosos. Os tumores podem ser malignos ou benignos. Um tumor maligno é câncer e um tumor benigno não é. Uma diferença fundamental entre o benigno e o maligno é que o tumor benigno não irá se espalhar (sofrer metástase) para partes distantes do corpo e, uma vez removido geralmente não crescerá novamente . Um tumor benigno é removido cirurgicamente ou pode ser simplesmente deixado no local e  observado. A decisão de retirar ou observar o tumor depende de seu tamanho, tipo e local.

Quando as células se dividem a uma taxa acelerada, elas geralmente começam a formar uma massa de tecido chamada de tumor. O tumor é alimentado pelos nutrientes que passam pelos vasos sangüíneos adjacentes e também podem crescer através da formação de uma substância chamada fator de angiogênese do tumor (formação de vasos). Este fator estimula o crescimento de um suprimento independente de sangue para o tumor. Os tumores podem causar a destruição de três formas:

  • os tumores pressionam os tecidos e órgãos ao redor;
  • os tumores invadem os tecidos e órgãos diretamente (extensão direta), geralmente danificando-os ou desabilitando-os no processo;
  • os tumores tornam os tecidos e/ou órgãos invadidos suscetíveis a infecções.

Os tumores também podem liberar substâncias que destroem os tecidos próximos a eles.

Uma das coisas mais assustadoras sobre o câncer é a possibilidade de metástase. Este é o processo onde milhões de células malignas são liberadas pelo tumor primário na corrente sangüínea. Felizmente, a maioria destas células são exterminadas através do trauma produzido enquanto viajam dentro das paredes dos vasos sangüíneos ou pelas células do sistema imunológico, como as células exterminadoras naturais (NK) e outros linfócitos T. Outras células imunológicas que lutam contra as células malignas são o macrófago e as substâncias produzidas pelas células imunológicas chamadas de linfocinas. Uma linfocina comum é chamada de interleucina-2 (IL-2) ou interferon. Veja Como funciona o sistema imunológico para mais detalhes sobre os diferentes componentes do sistema imunológico. Em alguns casos, as células malignas circulantes sobrevivem e aderem ao revestimento muscular interno das paredes dos vasos sangüíneos. Aqui o processo de formação do tumor pode se iniciar em uma área diferente do corpo, causando mais destruição.

 

O câncer é causado por vários fatores, alguns dos quais podemos, e outros não, controlar. Um dos fatores incontroláveis é a presença de mutação dos genes. Um tipo de gene que tem um papel no crescimento normal das células -um oncogene - pode ser alterado para contribuir com o crescimento descontrolado de um tumor. Os oncogenes afetam a maneira com que as células utilizam a energia e se multiplicam. Por exemplo, em alguns cânceres, o gene ras (um oncogene) sofre mutação e produz uma proteína que estimula as células para se dividirem prematuramente. Outros oncogenes, como o C-myc e o C-erb B-2, estão envolvidos no "câncer" de pulmão de pequenas células e no câncer de mama, respectivamente.

A mutação em genes supressores de tumores é outra causa comum do câncer. Como você pode esperar, um gene supressor de tumor deve evitar os tumores. Mas quando estes genes são danificados, eles podem permitir que o câncer se desenvolva ao invés de evitá-lo. Um destes genes,o p53, normalmente evita que as células com DNA alterado sobrevivam e possam se multiplicar. Quando o p53 está com defeito, estas células com DNA alterado sobrevivem e podem se multiplicar, aumentando a probabilidade de desenvolver o câncer.

Determinados cânceres estão associados às alterações dos cromossomos. Os cromossomos estão localizados dentro do núcleo das nossas células e contém nossos genes. Quando os genes estão faltando, estão duplicados ou são rearranjados aumenta a predisposição para desenvolver um tumor. Determinadas leucemias, sarcomas, linfomas e outros tumores estão associados às alterações dos cromossomos.

Existem também vírus associados ao câncer. O papillomavirus humano (HPV), que causa verrugas genitais, está associado ao carcinoma do colo uterino; e o vírus Epstein-Barr, que causa a mononucleose infecciosa, está associado ao linfoma de Burkitt's. As doenças ou medicamentos que podem afetar o sistema imunológico também podem aumentar o risco de determinados cânceres. A AIDS, por exemplo, está associada com o alto risco de dois tipos de cânceres, o Sarcoma de Kaposi e o linfoma.

A exposição à radiação ionizante pode aumentar o risco de determinados cânceres. Os raios-x utilizados para tratar distúrbios como acne ou alargamento da adenóide podem aumentar o risco de determinados tipos de leucemias e linfomas.

 

Felizmente, também existem fatores sob nosso controle que podem ser evitados. Existem substâncias chamadas de carcinogênios (agentes formadores de câncer) que podem aumentar o risco de desenvolver um câncer. Alguns carcinogênios comuns são:

  • arsênico, amianto e níquel, que podem causar câncer de pulmão e outros cânceres
  • benzeno, que pode causar leucemia
  • formaldeído, que pode causar câncer nasal e naso-faríngeo
  • e muitos outros...

Os carcinogênios que estão associados ao estilo de vida da pessoa incluem álcool - que aumenta o risco de câncer de boca, esofágico e orofaríngeo (trato gastrointestinal alto)-e o tabaco - que causa câncer de pulmão, cabeça e pescoço, esofágico e de bexiga. Mastigar o tabaco também pode aumentar o risco do câncer de boca.

A exposição sem proteção aos raios solares (radiação ultravioleta) está associada ao câncer de pele. Os principais cânceres causados pelos raios de sol são o carcinoma da célula basal e o carcinoma da célula escamosa.