Como prevenir o derrame?

A resposta é simples, tratando a hipertensão arterial (pressão alta) que é o principal fator de risco; e, indo mais além, prevenindo o aparecimento da hipertensão arterial. A hipertensão arterial é o fator de risco para doença cardiovascular mais importante no Brasil, apresentando distribuição desigual na população com maior prevalência entre os pobres.

Conseqüentemente, o risco de doença cerebrovascular também é maior na população pobre. O aumento dos níveis de pressão arterial com o envelhecimento é muito grande no Brasil. Em Portugal, esse aumento é ainda maior. Uma das causas desse aumento da pressão arterial com a idade seria a grande ingestão de sal na dieta, uma herança portuguesa.

 

Controle da pressão arterial
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Controle da pressão arterial é uma das
formas de prevenção do AVC

 Vários são os estudos populacionais que avaliaram a prevalência da hipertensão no Brasil. A maior parte desses estudos foi conduzida nas regiões Sul e Sudeste. O primeiro estudo de prevalência no Brasil foi realizado no Rio Grande do Sul. Esse estudo avaliou quatro regiões com características específicas: a maior prevalência de hipertensão foi encontrada nas cidades próximas a Porto Alegre (13,8%), seguida da própria Porto Alegre (12,3%), das cidades do interior do estado (11,4%) e da população rural (9,2%). Os migrantes que mudavam da zona rural para a urbana, adquiriam rapidamente os níveis de pressão arterial mais elevados da zona urbana, mostrando que o estilo de vida na região urbana leva ao aumento da pressão arterial.

Uma interrelação entre hipertensão e estratificação social foi detectada em Fortaleza, Ceará, na região Nordeste, em uma população avaliada de acordo com as condições de moradia. A maior prevalência de hipertensão foi detectada nos moradores de favelas (18%). Os níveis intermediários de pressão arterial foram observados nos indivíduos moradores de conjuntos habitacionais (14,9%). E os níveis mais baixos foram detectados entre os indivíduos que habitavam casas melhores (9%).

Em estudo realizado em Araraquara, no Estado de São Paulo, houve uma maior prevalência de hipertensão entre negros e mulatos, em obesos e naqueles indivíduos pertencentes a famílias com menor renda, com menos anos de estudo e com os piores salários. Outro estudo realizado em São Paulo mostrou que os metalúrgicos, os profissionais da mídia e os motoristas de ônibus apresentavam níveis de pressão arterial mais elevados que professores, médicos e advogados, mostrando que também existe um papel da ocupação que a pessoa exerce no aparecimento da pressão alta.

­O estudo mais marcante foi realizado em Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo, com o objetivo de avaliar o papel da raça e dos fatores psicológicos na determinação da hipertensão arterial. Os resultados foram muito importantes por mostrar que a presença de suporte social (principalmente suporte familiar e capacidade de lidar com situações adversas) se associaram a níveis de pressão arterial menos elevados. Esses fatores diminuem a importância da raça como determinante da hipertensão. Embora vários estudos sobre hipertensão tenham detectado níveis de pressão arterial mais elevados nos negros e mulatos, a falta de suporte social nessa parcela da população pode ser um dos fatores determinantes, já que eles possuem um poder econômico e social menor comparado à população branca e não simplesmente a questão da raça.

Outro estudo realizado no Brasil confirmou a hipótese de que a hipertensão está mais associada aos fatores psicossociais do que à raça. Uma comunidade negra isolada, formada a partir de negros fugidos de fazendas da região há muitas décadas, incrustrada no meio da floresta tropical e totalmente cercada por montanhas foi objeto de estudo de prevalência de hipertensão em Goiás. Os níveis de prevalência de pressão alta encontrados (6,2%) foram menores do que o observados nas cidades. Os habitantes dessa comunidade eram mais magros, comiam menos sal, praticavam mais atividade física e consumiam mais álcool em relação à população das cidades e isso fazia com que eles apresentassem níveis de pressão arterial mais baixos.

No estudo de Bambuí, realizado em uma população idosa moradora do interior de Minas Gerais, foram avaliados 820 adultos jovens e 1.494 idosos. O estudo mostrou prevalência de hipertensão de 24,8% dos avaliados, sendo mais elevada nas mulheres do que nos homens. Os fatores associados à presença de hipertensão foram sedentarismo, obesidade, açúcar no sangue elevado e níveis de gorduras (colesterol e triglicérides altos) no sangue também elevados.

Como a hipertensão é mais freqüente nas populações mais pobres, o derrame também é mais comum nessa população. E, justamente nessa população, com menor acesso aos serviços de saúde, é que a prevenção do acidente vascular cerebral mais falha. A hipertensão é o fator causal mais importante em 80% dos acidentes vasculares cerebrais isquêmicos e em 100% dos hemorrágicos, e o controle da pressão arterial seria a melhor forma de prevenir a doença.

Embora as melhoras decorrentes do tratamento do acidente vascular cerebral sejam lentas, hoje em dia mais pessoas sobrevivem ao derrame. Ou seja, a melhora do controle dos níveis de pressão arterial já mostrou seu efeito diminuindo a mortalidade por acidente vascular cerebral, mas ainda há muito o que melhorar.

Apesar disso, a situação ainda está muito longe da ideal. A negligência em relação ao acidente vascular cerebral vem do fato dele ser associado à pobreza ou então, à senilidade. Essa sensação de nada a fazer a não ser se conformar deve ser combatida energicamente.