O acidente vascular cerebral é uma das doenças mais negligenciadas no Brasil e no mundo. Por que isso acontece? Artigo publicado no jornal The New York Times há alguns anos discute esse fenômeno nos Estados Unidos. De acordo com a American Stroke Association (Associação Americana para o Acidente Vascular Cerebral), o derrame é a terceira doença que mais causa mortes no país, atrás apenas da doença coronariana e do câncer: o derrame mata cerca de 150 mil norte-americanos por ano e custa mais de 60 bilhões de dólares ao país.
Um dos problemas no atendimento do paciente com acidente vascular cerebral é que a maioria dos pacientes que chegam aos hospitais com sintomas compatíveis com acidente vascular cerebral não é atendida por neurologistas nem recebe o melhor tratamento para a doença, que seria a administração da alteplase -correspondente, no derrame, à administração de estreptoquinase ao paciente com infarto do miocárdio. Enquanto a maior parte dos infartados recebem o tratamento para recanalização da artéria coronária obstruída, o mesmo não acontece com os pacientes com diagnóstico de acidente vascular cerebral.
Nos Estados Unidos estima-se que menos de 5% dos acidentes vasculares cerebrais recebam alteplase nos pronto-socorros. No Brasil, esse número deve ser menor ainda. As causas para o não tratamento adequado são a demora da chegada do paciente ao hospital (a alteplase deve ser administrada em até 3 horas após o início do derrame), o número muito pequenos de centros que estão equipados para realizar o tratamento e a ausência de aparelhos de tomografia computadorizada ou de ressonância nuclear magnética capazes de fazer o diagnóstico diferencial entre os acidentes vasculares isquêmico e hemorrágico. O paciente com acidente vascular hemorrágico não pode receber a alteplase por risco de aumento do sangramento. Outro ponto importante é que o acidente vascular cerebral é mais comum na população mais pobre, com menor acesso aos serviços de saúde.
![]() O gráfico acima mostra a mortalidade por AVC por nível de renda na cidade de São Paulo, sendo o quartil 4 o da população mais pobre, e o quatril 1, da população mais rica. Os resultados são muito claros: quanto maior o grau de exclusão social, maior o risco de AVC na população |
O derrame é visto por muitas pessoas com uma forma de morte que não se pode evitar. Isso também acontece entre os médicos. Isso faz com que no mundo inteiro o paciente com diagnóstico de acidente vascular cerebral seja sempre menos bem tratado do que o paciente com infarto do miocárdio. Uma possibilidade é que se trate de um fenômeno de transferência, com fundo psicológico, que leva ao atendimento diferenciado entre os dois tipos de paciente.
É raro um infartado com seqüelas importantes após o infarto do miocárdio, enquanto que para o paciente com acidente vascular cerebral, as seqüelas graves atingem a proporção de quase 50%. A atitude passiva dos médicos em relação ao derrame faz com que haja um investimento menor no tratamento do derrame em comparação ao que se dá ao infarto do miocárdio.