A COX-2 pode ser encontrada em muitos tecidos normais, mas a maior parte é produzida em tecido que sofreu algum dano. Acaba acontecendo que a aspirina se liga à COX-2 e impede que ela faça seu trabalho; é como colocar uma trava em sua bicicleta. A bicicleta não se move com a trava, e a COX-2 não funciona com a aspirina presa à ela. Assim, ao tomar aspirina, não resolvemos o problema que causa a dor, como os músculos tensos no couro cabeludo, as cólicas abdominais ou o dedo que levou uma martelada. Mas ela "diminui o volume" dos sinais de dor que passam pelos nervos para chegar ao cérebro.
Uma pergunta comum sobre a aspirina e outros medicamentos é: "Como ela sabe como chegar ao local da dor?" A resposta é que ela não sabe! Quando tomamos aspirina, ela se dissolve no estômago ou na parte seguinte do trato digestivo, o intestino delgado, onde é absorvida pelo organismo. Depois, ela entra na corrente sangüínea e passa pelo corpo todo. Embora ela esteja em toda parte, apenas atua onde há produção de prostaglandinas, que inclui a região da dor.
Podemos perguntar: "Por que temos de continuar tomando aspirina se ela funciona tão bem?" Como acontece com quase todas as substâncias químicas, o organismo tem maneiras de eliminar a aspirina. Neste caso, o fígado, o estômago e outros órgãos alteram a aspirina para... adivinhe! Ácido salicílico! Essa substância química então, lentamente, é alterada mais um pouco pelo fígado, que associa outras substâncias ao ácido salicílico de forma que os rins possam filtrá-lo, retirando-o do sangue e eliminando-o na urina. O processo todo leva de quatro a seis horas, por isso precisamos tomar outro comprimido nesse momento para manter o efeito.
O problema com o fato de a aspirina percorrer toda a corrente sangüínea é que o organismo tem alguns motivos para precisar de prostaglandinas. Uma região em que elas são úteis é o estômago; acontece que outra enzima chamada COX-1 produz uma prostaglandina que parece manter o revestimento do estômago íntegro e espesso. A aspirina impede que a COX-1 atue (ela impede a produção da maioria das prostaglandinas - ela é "não seletiva"), e o revestimento do estômago se afina, permitindo que o suco gástrico o irrite. Provavelmente essa é a maior razão para a aspirina e outras substâncias da mesma família perturbarem o estômago (não apenas por ser um ácido, como Hoffmann chegou a pensar).
A COX-2 também atua em alguns tecidos normais como o cérebro e o rim; em quantidades normais, uma dose de aspirina provavelmente não influencia muito essas áreas. Além disso, há outras regiões do corpo em que as prostaglandinas têm uma função a desempenhar em tecidos normais. Por exemplo, o sangue...
Nas últimas décadas, constatou-se que a ação da aspirina de impedir a produção de prostaglandinas tem efeitos sobre outras coisas além da dor, da inflamação e do estômago.
Por exemplo, alguns tipos de prostaglandinas fazem com que partículas minúsculas no sangue (conhecidas como plaquetas) se aglomerem para formar um coágulo sangüíneo. Ao inibir a produção de prostaglandinas, a aspirina reduz a produção de coágulos. Embora isso possa ser ruim, por exemplo no caso de sangramento nasal - quando queremos que se forme um coágulo - coágulos sangüíneos podem ser prejudiciais também, por exemplo, ao causarem infartos pelo bloqueio de vasos sangüíneos que levam oxigênio e energia ao coração. Por isso, muitos adultos agora tomam aspirina para prevenir infartos, e isso também ajuda àqueles que já tiveram um ataque cardíaco a permanecerem vivos. Certamente, Hoffmann (e a Bayer) jamais teriam previsto esse efeito. E como se observou já na época de Hipócrates, na Grécia antiga, a aspirina e outras substâncias da mesma família também abaixam a febre; isso parece ser conseqüência de um efeito em uma região do cérebro conhecida como hipotálamo, que controla a temperatura (e outras funções corporais).
Muitas pesquisas estão sendo feitas para descobrir se a aspirina pode ser usada para outros problemas; ela já deu alguns sinais promissores ao ajudar em problemas tão diversos quanto a catarata nos olhos, alguns tipos de câncer, doença gengival e pressão arterial elevada durante a gravidez.
Como acontece com todos os medicamentos, a aspirina tem seu lado negativo. Ela causa efeitos sobre o organismo que nem nós nem o médico desejamos (efeitos colaterais). Alguns deles já foram mencionados; por exemplo, se você levar uma martelada no dedo e ele sangrar, a aspirina pode ajudar na dor e no edema, mas o sangue demorará mais para coagular e estancar o sangramento. Além disso, ela pode ser irritante para o estômago, sobretudo em doses elevadas, geralmente usadas na artrite.
A aspirina também não é muito usada para febre em crianças porque pesquisas indicam que se empregada em crianças com gripe, catapora, ou outras viroses, a aspirina pode causar um problema potencialmente fatal chamado síndrome de Reye.
Além disso, a aspirina altera o modo que os rins produzem urina, pode levar algumas pessoas a terem dificuldade de respirar (raramente), e pode ser perigosa em doses elevadas.
Por essas razões, os químicos constataram que outras substâncias químicas intimamente relacionadas à aspirina têm alguns de seus efeitos positivos, mas não alguns dos negativos. Por exemplo, ibuprofeno e naproxeno também tratam a dor, o edema e a febre, mas parecem causar menos efeito sobre as plaquetas do que a aspirina. Esses medicamentos são denominados drogas antiinflamatórias não esteróides (NSAIDs) porque reduzem o edema, mas não são esteróides, os antiinflamatórios mais potentes que temos. Outra família de medicamentos relacionados à aspirina engloba o acetaminofeno, que alivia febres e dores, mas não afeta o edema nem o estômago tanto quanto as verdadeiras NSAIDs.
Felix Hoffmann tinha certeza de que a aspirina seria um bom medicamento para a artrite. Mas enquanto se esforçava para provar suas suspeitas ao seu cuidadoso empregador, como poderia saber que ela salvaria vidas de tantas maneiras distintas? Assim, da próxima vez que você usar o martelo, pense em Felix e separe uma ou duas aspirinas. Ele merece a homenagem, e é melhor estar preparado caso acerte o prego errado.
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