Um passeio pelos caminhos da memória: como criamos as memórias

Autor: 
Cristen Conger

Imagine por um momento como seria a vida com uma memória perfeita. Se você pudesse se lembrar de cada detalhe de tudo que acontecesse com seus cinco sentidos, a primeira hora do dia já seria mentalmente devastadora - seria realmente muita informação. É por esse motivo que o cérebro seleciona dados em suas memórias de curto ou de longo prazo ou os descarta.

Linha do tempo da memória
Os passos necessários para que um estímulo, ou algo que sentimos, transforme-se em memória

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A memória de curto prazo permite que nos lembremos das informações necessárias em um momento específico, mas que podem ser eliminadas depois. É semelhante a uma "marmita": você usa para armazenar temporariamente pequenas quantidades de informações e depois as descarta. A memória de curto prazo mantém até sete fragmentos de informações por cerca de 20 a 30 segundos [fonte: Instituto Canadense de Neurociência, Saúde Mental e Dependência (em inglês)]. A memória de longo prazo é semelhante a um "freezer" (em inglês): pode guardar as informações durante anos, ou até pelo resto da vida, mas, se não forem usadas, podem ser "apagadas pelo freezer".

Formamos e armazenamos as memórias criando novas vias neu­rais ao cérebro de coisas que captamos por meio de nossos cinco sentidos. Os estímulos que nossas células nervosas detectam, como ouvir um tiro ou saborear uma framboesa, são chamados de memórias sensitivas. Essas informações percorrem as células nervosas como um impulso elétrico. Quando esse impulso chega no fim de um nervo, ele ativa os neurotransmissores, ou mensageiros químicos. Esses neurotransmissores enviam a mensagem pelos espaços entre as células nervosas, chamados de sinapses, carregando-a até o cérebro. Se precisamos usar essas informações sensitivas imediatamente, elas seguem para a memória de curto prazo, por exemplo, quando ouvimos um número de telefone e temos que lembrar dele para discar.

Para transformar memórias de curto prazo em memórias de longo prazo, nossos cérebros precisam codificar, ou definir, as informações. Lembra da framboesa? Codificá-la provavelmente incluiria a catalogação do tamanho, aspereza e cor da fruta. A partir daí, as células cerebrais consolidariam as informações para armazenamento, associando-as às memórias relacionadas. Durante esse processo, essa via neural se fortalece devido à plasticidade do cérebro. A plasticidade permite que o cérebro mude de forma para receber novas informações e, assim, novas vias.

A recuperação da memória de longo prazo requer uma nova visita às vias nervosas que o cérebro formou. A força dessas vias determina a rapidez com que você traz de volta a memória. Para reforçar essa memória inicial, ela deve passar várias vezes pelas células nervosas, traçando novamente seus passos.

A formação da memória ocorre amplamente no sistema límbico (em inglês) do cérebro, que controla o aprendizado, a memória e as emoções. O córtex é o local de armazenamento temporário das memórias de curto prazo e a área em que o cérebro coloca os novos estímulos dentro do contexto. O hipocampo, então, interpreta as novas informações, associa-as às memórias anteriores e determina se vai codificá-las como uma memória de longo prazo. Em seguida, o hipocampo envia as memórias de longo prazo para diferentes regiões do córtex, dependendo do tipo de memória. Por exemplo, a amígdala guarda as memórias intensamente emocionais. As memórias são, então, armazenadas nas sinapses onde podem ser reativadas posteriormente. Para obter mais informações, leia Como funciona o cérebro.

mapa da memória
Esquema das partes do cérebro onde as
memórias são formadas e armazenadas

A seguir, veremos o que acontece quando essas vias neurais que formam nossas memórias são interrompidas por uma barreira chamada amnésia.

Tipos de memória de longo prazo

Episódica/explícita - memória com base em fatos e informações específicas. Ao estudar para uma prova, você exercita sua memória explícita.
Processual/implícita - memória sensitiva e motora, usada para atividades como andar de bicicleta ou tocar guitarra.
Semântica - organiza e categoriza as memórias. Por exemplo, se alguém quiser saber qual é sua banda favorita, sua memória semântica filtrará as informações relacionadas à música à procura do nome de uma banda.
Emocional - memória intensa que pode provocar reações emocionais.
Espacial - relacionada ao esboço ou espaço de uma área.