É verdade que o absinto provoca alucinações?

Autor: 
Julia Layton
absinto

Quando o absinto foi banido na França, na Suíça, nos Estados Unidos e em muitos outros países, no início do século 20, ele realmente caiu em desgraça. Ele não foi apenas reprovado; foi acusado de criar assassinos, transformar crianças em criminosos e mulheres em "mártires". O álcool tradicional recebeu tratamento semelhante durante o período da Lei Seca nos Estados Unidos, e isso se mostrou bastante oportuno. Hoje em dia sabemos que o absinto, fabricado de maneira apropriada, na forma de bebida alcoólica com aroma de anis, não é mais perigoso do que qualquer outra bebida devidamente preparada.

E as histórias de alucinações, Oscar Wilde e as tulipas, massacres em família e morte instantânea? Nada disso tem relação com o absinto, tecnicamente falando. O teor alcoólico do absinto é bastante elevado - algo entre 40% e 85%, o que equivale a cerca de 110 a 144 proof na graduação norte-americana. No Brasil, o maior teor alcoólico no absinto, segundo permite a legislação, é de 54%. Comparativamente, um uísque normal 40% (80 proof) vai parecer brincadeira de criança, e é por isso que a idéia é diluir o absinto. O absinto não é um alucinógeno; seu teor alcoólico e seu aroma de ervas o distanciam das outras bebidas.


Foto de Eric Litton
usada com a permissão de CCAS 2.5

O absinto tradicional é feito de anis, erva-doce e losna (uma planta), mas há diversas receitas que acrescentam outras ervas e flores à mistura. O anis, a erva-doce e a losna são embebidos em álcool e a mistura é destilada. O processo de destilação faz que os óleos das ervas e o álcool evaporem, separando-se da água e das essências amargas liberadas pelas ervas. Os óleos de erva-doce, anis e losna se recondensam com o álcool em uma área de resfriamento e o destilador dilui o líquido resultante até o grau que o absinto vai ter (com base em variações de marcas ou leis regionais). A essa altura, o absinto está claro; muitos fabricantes acrescentam ervas à mistura após a destilação para obter a clássica coloração verde da clorofila.

O princípio ativo que leva toda a culpa pela fama de alucinógeno do absinto se chama thujone, e é um componente da losna. Em doses muito altas, o thujone pode ser tóxico. Trata-se de um inibidor GABA (ácido gama-aminobutírico), o que significa que ele bloqueia os receptores GABA no cérebro e isso pode causar convulsões se você ingerir uma certa quantidade. Está presente em muitos alimentos, mas nunca em doses altas o suficiente para fazer mal. No absinto também não há quantidade suficiente de thujone que possa fazer mal. No final do processo de destilação, sobra muito pouco thujone no produto. A ciência moderna estima que uma pessoa que beba absinto morrerá de intoxicação pelo álcool muito antes de ser afetada pelo thujone. E não existe prova nenhuma de que o thujone possa provocar alucinações, mesmo em doses elevadas.

Levando em conta as análises atuais da bebida e de seus ingredientes, é bem mais provável que uma morte relacionada ao absinto seja atribuível ao alcoolismo, a uma intoxicação por álcool ou à ingestão de uma bebida de má qualidade, que, assim como a moonshine, uma bebida destilada ilegalmente, pode conter substâncias tóxicas. Não compre absinto de qualquer um - você correrá os mesmos riscos que correria bebendo moonshine vendido em uma barraquinha. E a menos que você tenha um destilador em casa, com aqueles kits faça-você-mesmo vendidos na Internet, você vai produzir uma bebida herbácea de gosto horroroso, não absinto.

Só para esclarecer, aquele homem que matou a família na Suíça em 1905, provocando um monte de restrições quanto ao absinto e até mesmo uma emenda constitucional, estava sob a influência do absinto - ele estava bebendo desde que acordou naquele dia, sem parar (e no dia anterior também). E Oscar Wilde? Bem, não restam dúvidas de que o poeta viu tulipas nas pernas enquanto andava sob a luz matinal depois de uma noite bebendo absinto em um bar local. Os poetas são assim mesmo. As pessoas normais não veriam tulipas após beber absinto, tanto quanto gim tônica.

Hoje em dia, o absinto é legal em quase todos os países onde o álcool é legal. Os Estados Unidos são um dos poucos países que ainda proíbem a venda de absinto.

  • The Virtual Absinthe Museum (em inglês)
  • Wired Magazine: The Mystery of the Green Menace (em inglês)
  • The Wormwood Society (em inglês)

Fontes

  • Harold McGee. "Trying to Clear Absinthe’s Reputation." The New York Times. 3 de janeiro de 2007.
  • "The Shaky History of Thujone." The Wormwood Society.
  • The Wormwood Society