É possível se viciar em café?

Muitas pessoas só conseguem “começar o dia” bem com uma boa xícara de café. A cafeína é um alcaloide, ou estimulante natural, que também pode ser encontrado em outras plantas (como na erva-mate, no cacau e no guaraná), e tem um efeito revigorante sobre o organismo. Em outras palavras, ela nos deixa mais despertos, atentos e com mais energia.

Um xícara de café comum contém cerca de 100mg de cafeína, o suficiente para deixar-nos bem despertos a qualquer momento. Mas o problema ocorre quando o corpo passa a se habituar à cafeína, e precisamos de quantidades cada vez maiores para obter os mesmos efeitos. Isso também acontece no caso de outras substâncias, como o álcool e a nicotina (também um alcaloide), e pode levar ao vício. Mas será que existe um risco real de uma pessoa se tornar viciada em café?


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Para a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), isso é impossível. A entidade compara o hábito de beber café ao de praticar exercícios e afirma que, assim como qualquer outro hábito, a sua interrupção pode levar a uma espécie de abstinência, mas nada grave. Segundo a ABIC:

Tomar café diariamente pode ser descrito como um hábito saudável comparável ao exercício físico regular. Toda pessoa deve no mínimo caminhar meia hora por dia, pelo menos 5 dias da semana e da mesma forma tomar 3-4 xícaras de café por dia. O excesso de café como de exercícios pode ser prejudicial e caso a prática regular de exercício ou de consumo de café seja interrompida, o organismo pode sentir a diferença pela falta do hábito saudável”.

A ABIC destaca ainda que, segundo a Organização Mundial da Saúde, “não há nenhuma prova de que o uso de cafeína tenha consequências físicas e sociais comparáveis, ainda que remotamente, às consequências das drogas”.

Ainda assim, não há como negar que existe uma “crise de abstinência” experimentada pelas pessoas que decidem, seja por vontade própria, seja por questões de saúde, eliminar o café da dieta.

Nesses momentos, algumas pessoas se queixam de sonolência, letargia e até dor de cabeça, entre outros sintomas. Nos casos mais graves, pode haver depressão ou aumento da ansiedade.

A cafeína é eliminada de vários tipos de dietas recomendadas pelos médicos para tratar uma grande variedade de problemas, sobretudo inflamações. Assim, pessoas com labirintite, cistos no ovário, insônia, distúrbios de ansiedade, alguns problemas cardíacos, úlceras e inflamações do esôfago, por exemplo, não podem consumi-lo em excesso. O café, assim como o chá preto e o vinho tinto, também pode causar o escurecimento dos dentes e problemas na gravidez.

Se você está tendo dificuldades em parar de beber café e realmente precisa ou quer interromper o consumo da bebida, será necessário um esforço maior nos meses iniciais, mas, com o tempo, ficará cada vez mais fácil abandonar o consumo. Confira algumas dicas:

- Substitua o café por outras bebidas, como chás ou sucos. Além de melhorar a saúde, você poderá experimentar outros sabores.

- Consumir bastante água também ajuda a desintoxicar o corpo e acelerar o processo de “desligamento” da cafeína.

- A prática de exercícios físicos vigorosos também é recomendada, pois libera endorfina, hormônio que causa uma sensação geral de bem-estar no corpo.

- Algumas pessoas gostam de eliminar um hábito “de um dia para o outro”, outras, preferem seguir um processo gradual, em que vão abandonando-o aos poucos. Avalie o que funciona melhor para você e siga seus instintos.

- Existem variedades de café descafeinado, que têm quantidades bem pequenas de cafeína, conservando todas as demais características da bebida – cor, sabor, aroma e textura. Você pode misturar uma parte de café comum com outra de café descafeinado para ajudar no processo de abandonar o hábito.

- Escolha períodos tranquilos de vida para realizar sua desintoxicação. Momentos de grande estresse – como viagens, mudanças de emprego ou de casa, fim de relacionamentos – nos deixam mais fragilizados física e emocionalmente, o que pode dificultar ou impossibilitar o sucesso da desintoxicação.


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Café como droga

Alguns especialistas e setores da medicina, entretanto, não veem o café com bons olhos.

Um relatório do renomado hospital e Instituto de Pesquisa John Hopkins Medicine, nos Estados Unidos, afirma que a “cafeína é a droga comportamental ativa mais amplamente usada no mundo”, e alerta que mesmo quantidades mínimas, como uma inocente xícara do cafezinho nosso de cada dia pode levar a sintomas de abstinência, em alguns casos, bastante graves.

O artigo “Abstinência de cafeína reconhecida como um transtorno”, publicado em 2004, relata que, em geral, quanto mais cafeína é consumida, mais severos os sintomas da abstinência, mas “até mesmo uma xícara de café por dia pode levar ao vício em cafeína, de acordo com um estudo da Johns Hopkins que revisou mais de 170 anos de pesquisas sobre a abstinência da cafeína”.

“A cafeína é o estimulante mais usado no mundo, é barato e prontamente acessível, de maneira que as pessoas podem manter seu uso bem facilmente”, afirma Roland Griffiths, Ph.D., professor de psiquiatria e neurociência na John Hopkins. “Entretanto, as mais recentes pesquisas demonstram que quando as pessoas não ingerem sua dose usual podem sofrer de vários sintomas de abstinência, incluindo dor de cabeça, fadiga e dificuldades de concentração. Podem até mesmo sentir-se como quando estão resfriadas, com náuseas e dores musculares”.

Em sua pesquisa, ele verificou que, dentre os indivíduos estudados com sintomas de abstinência da cafeína, 50% apresentaram dor de cabeça e 13% tiveram um estresse significativo – por exemplo, dor de cabeça ou outros sintomas que não lhe permitiram trabalhar. Geralmente, o aparecimento dos sintomas ocorreu entre 12 a 24 horas depois da interrupção do consumo de cafeína, com um pico de intensidade entre um e dois dias e por uma duração de dois a nove dias.

E a pesquisa ainda indica que, talvez, o bem estar que sentimos ao tomar nossa xícara de café pela manhã seja na verdade o alívio dos sintomas de abstinência, pelo período da noite, em que não consumimos cafeína.